`\Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Testemunhos de Vida Missionária

O meu guia, Aziz, de vez em quando pronuncia ditos tuareg que me reanimam. O oásis de Timonoum parece longe. É como uma ilha no meio do mar: algumas palmeiras, pouca água e pequenas casas.

Chegamos lá depois de três horas de caminhada, quando já despontavam no céu as primeiras estrelas. Os camponeses voltavam das hortas carregados de tâmaras e os meninos saíam da escola muçulmana repetindo em alta voz o que haviam decorado.
O mercado se esvazia e os alto-falantes da mesquita chamam os fiéis para a última oração do dia.

Não há cristãos, a não ser uma pequena comunidade de irmãs Brancas, única presença da Igreja num território de centenas de quilômetros. Elas vivem num quarteirão popular, com edifícios todos iguais, vermelhos como a terra que os cerca e que ao pôr do sol parecem se incendiar.

Irmã Renée num curso de corte e costura

A casa das irmãs é simples e acolhedora: três quartinhos, uma sala que às vezes serve até como capela. Uma das irmãs diz que ela está ótima: “O espaço é pequeno, mas suficiente para acolher os amigos que querem nos visitar”.

“Para nós é fundamental vivermos como as pessoas daqui, partilhar de suas vidas e manter relacionamentos de amizade e confiança”, complementa outra irmã com um sorriso doce.

Atualmente, a herança deixada por uma leiga italiana foi aceita por três irmãs: Madalene, que é enfermeira especializada em reeducação motora, Gabri, que trabalha com crianças desajustadas, e Renée, que se ocupa da formação feminina.

Todo dia elas viajam com o jipe para os lugarejos situados às margens das dunas. Lá, o calor nunca é menor que 50 graus e o vento varre continuamente as torres das mesquitas.

Uma mala velha e empoeirada, cheia de agulhas, é a companheira de Renée. Seu curso de corte e costura é esperado com alegria pelas mulheres, pois quebra a monotonia dos dias. A condição das mulheres daqui não é das mais fáceis, já que grande parte do trabalho recai sobre seus ombros e não tem o reconhecimento por aquilo que são e fazem.

Por outro lado, afirma Renée, “não é nossa intenção mudar o costume de vida daqui. Procuramos, portanto, conjugar os esforços de promoção humana com os costumes ditados pela religião muçulmana. É coisa delicada que merece respeito e equilíbrio”.

À noite, a comunidade se reúne e depois da oração visitamos os vizinhos: “Fazem parte da nossa família, são ótimos muçulmanos e convivemos sem problemas. A religião não é algo que nos divide, mas pode representar um espaço de diálogo que enriquece”.

Conversamos com o velho Maruf, o último artesão do oásis, que decora a argila com utensílios primitivos. O velho artesão se mostra um tanto decepcionado: “Gostaria de ensinar aos jovens, mas eles pensam em outras coisas. Logo que começam a ganhar algo, vão correndo comprar uma parabólica para poder receber programas ocidentais. Sonham em se tornar como vocês e desprezam as nossas tradições. Justamente agora que o país teria necessidade de seus melhores filhos para sair da crise”.

A Argélia está atravessando um momento particularmente difícil. A guerra, que opõe o Estado ao islamismo armado, já produziu mais de 100 mil mortos e o isolamento internacional. A economia é sufocada pela dívida externa e permanece dependente da exportação do petróleo. O novo presidente encontrou um país ensangüentado, empobrecido e corrompido.

As feridas dos massacres não se cicatrizaram. A guerra envenenou o relacionamento entre as pessoas e varreu a confiança nas instituições.

Diz Dom Teissier, arcebispo de Argel: “Depois de anos de terror, desejamos fortemente a paz. Mas, para que o processo de paz continue, todos devem fazer sua parte”.

As 3 irmãs: da esqueda Madelene do meio Gabri a direita Renée

Numerosas figuras da igreja argelina marcaram, com seu grande prestígio, a nação e sua própria religiosidade. Entre elas citamos Santo Agostinho, dom Carlos Lavigérie, primeiro bispo de Argel e fundador dos Padres Brancos, e Charles de Foucauld, que se estabeleceu no deserto entre os muçulmanos e viveu na pobreza, como ensinou Jesus.

A Igreja, durante os anos do terrorismo, pagou um preço muito alto: o assassinato de vários padres Brancos e, ultimamente, dos Monges de Tiberine e de Dom Claverie, Bispo de Orano.

Hoje, a Igreja da Argélia conta com alguns milhares de cristãos e com 250 padres e religiosas. Um cristão testemunha: “Não foi fácil para nós cristãos, mas sobre o medo prevaleceu a vontade de testemunhar nossa solidariedade com as pessoas contra os ataques dos terroristas”.

As atividades prosseguem. Como sempre, são organizados cursos de línguas estrangeiras para rapazes e procura-se o diálogo com os muçulmanos, dando prioridade às obras de solidariedade. É necessário superar a imagem do religioso que converte os muçulmanos e conquistar a confiança do povo.

Xavier, um Pequeno Irmão do Evangelho, que vive há 23 anos no oásis de Beni Abbes, diz: “Minha alegria maior é poder partilhar a vida todos os dias com os nômades: a amizade elimina as diferenças de fé e permite construir relacionamentos de verdadeira comunhão”. O povo do lugar o chama de marabut, que quer dizer homem de fé.

Marco Trovato

A Argélia, maior país da África do Norte, é formado por duas áreas geográficas bem diferenciadas: a faixa litorânea (1% do território) e o grande deserto, com uma superfície de mais de dois milhões de quilômetros quadrados, onde moram somente 5% da população do país.

Os argelinos são, em sua maioria (80%), árabes. Há ainda uma pequena minoria de franceses. Embora seja bem difundida a língua francesa, o idioma oficial é o árabe.

O islamismo, religião oficial, coexiste com minorias católica e judaica.

O petróleo e o gás, escondidos sob suas areias, trouxeram, na segunda metade do século XX, uma contribuição essencial para a modernização do país, cuja população se concentra no litoral.

PARA REFLETIR:

1. O que mais lhe impressionou da experiência cristã e pas- toral dos missionários e missionárias na

Um Guia com o seu Camelo

Argélia?

2. Que tipo de atitudes deve ter o missionário que tra- balha num país dominado pelos muçulmanos?

3. Qual a mensagem que podemos tirar desta ex- periência?

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