Revista "MUNDO e MISSÃO"

Crianças

Trágica ironia da história

Freetown, em português Cidade Livre, foi fundada para ser a capital de Serra Leoa, local que acolheria os escravos negros libertos. Hoje esse nome é um trágica ironia. Por causa de alguns meses de guerra civil entre governo, guerrilha e assassinos, o povo da capital vive acuado e amedrontado pela ferocidade com que crianças guerrilheiras matam, brutalizam, mutilam e perseguem os cidadãos.

Violência pela violência

Desde 1961, data de sua independência, Serra Leoa vive alternando governos civis, militares e golpes violentos. O país, entre os mais pobres do mundo, apesar das jazidas de diamantes nas mãos de estrangeiros, pouco interessa às grandes potências européias e foi deixado à deriva: não vale a pena enviar exércitos, nesse clima generalizado de violência e pobreza, a troco de nada.
O atual conflito iniciou-se com a derrubada do presidente Ahmed Tejan Kabbah por rebeldes da Frente Revolucionária Unida, liderados por Foday Sankoh, atualmente na prisão. Invocando a legalidade da eleição de Kabbah, a Nigéria e outros países enviaram uma força de intervenção que reconduziu o ex-presidente ao governo e expulsou os rebeldes da cidade, em fevereiro de 1998. Em dezembro do mesmo ano, os rebeldes, muitos dos quais são adolescentes, retomaram Freetown: somente na primeira quinzena de lutas, houve mais de 10 mil mortos. Em seguida, as forças governamentais conseguiram melhorar a própria situação, mas o caos continua.
De dia, predominam as forças do governo, à noite, os guerrilheiros adolescentes, nada tendo a perder a não ser a própria vida e liderados por guerrilheiros adultos, entregam-se à matança e ao estupro: decepam braços e pernas, cortam o ventre das grávidas, jogam as vítimas no mar ou abandonam os cadáveres nas ruas como alimento para os abutres. Não existe mais autoridade nesse país que segue a trajetória de outros países africanos, como Ruanda, Burundi e Angola, tristemente lembrados pela selvageria das matanças étnicas, e é difícil prever uma solução para o conflito. Os guerrilheiros reclamam a libertação de seu líder, mas o governo não parece disposto a ceder. Todavia, esse será o caminho, se quiserem chegar a uma trégua na matança de uma população inocente.
Entre as vítimas, contam-se também religiosos: entre 22 de janeiro e 5 de fevereiro, quatro irmãs da congregação de madre Teresa de Calcutá foram mortas, durante os conflitos; uma delas foi raptada e abandonada com uma ferida fatal à qual não sobreviveu.

África: uma inexplicável espiral de sangue

As tragédias africanas deveriam, pelo menos, nos questionar: o que move todas essas barbáries? Mas isso não acontece. No máximo, suscitam momentâneos sentimentos de compaixão. Muitas vezes, nem a mídia dá notícia sobre o que acontece na África: simplesmente não interessa. E nós, se num raro momento de compaixão, os chamamos de irmãos, os consideramos irmãos de última categoria.
Por que isso acontece?
Esse fatos acontecem em lugares política e geograficamente distantes. Essas populações não contam no cenário político internacional, não ocupam terras ricas de matéria-prima necessária ao Ocidente, porque onde essas matérias existem (basta falar do petróleo) lá estão as forças ditas de paz. Geralmente, não têm uma liderança que se destaque e que consiga despertar a atenção do mundo.
Por isso é que as forças de paz, que ultimamente acumularam fracassos, não são mais enviadas para pacificar mas, quando é o caso, para salvar os ocidentais que por lá se encontram... Será que o negro africano é alguém inútil ou alguém que sobra no cenário globalizado desse fim do século?

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