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ALBERICO DA CHINA
Costanzo Donegana
O sangue de um missionário do Pime fecunda a terra da China
No dia 1º de outubro, João Paulo II proclamou santos 120
mártires da China que testemunharam sua fé, no período
entre 1747 e 1930. A escolha de não ultrapassar este limite manifesta
a preocupação do papa em não querer provocar a reação
da República Popular que não gosta da imagem de perseguidor
da religião (como, na realidade, é). Colocar os mártires
na abertura do mês missionário é uma indicação
clara para tê-los diante dos olhos, como modelo e estímulo
para todos os cristãos na obra de evangelização.
O sangue é fecundo e semente de novos cristãos.
A missão
Alberico Crescitelli é um dos 120 missionários do Pontifício
Instituto das Missões (Pime), que sofreu o martírio no dia
21 de julho de 1900. Nascido no Sul da Itália, entrou no Pontifício
Seminário dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo para as Missões
de Roma (unificado com o Pime em 1926) e foi ordenado sacerdote em junho
de 1887. Voltando a sua cidade natal para os festejos, foi surpreendido,
pouco depois, por um gravíssimo surto de cólera. Aos conselhos
de amigos e familiares, que lhe sugeriam de fugir, preferiu escutar a
voz da caridade e ficou dedicando-se heroicamente às vítimas,
pondo em risco a própria vida.
Foi destinado para a missão de Hanchung, na província do
Shensi, no Nordeste da China. No Shensi foi encontrada uma pedra do ano
782, que relata a chegada do cristianismo naquelas regiões, a partir
do ano 636, por obra de monges do Oriente Médio, e sua grande difusão.
Mas toda aquela vitalidade perdeu-se, inexplicavelmente, na memória
da história: só ficaram algumas ruínas.
Na primeira metade do século XIV, voltaram ao Shensi os franciscanos
italianos, que, porém, tiveram de deixar cedo o terreno por causa
da hostilidade do imperador. Sorte melhor terão os jesuítas
três séculos depois: seu fecundo trabalho de evangelização
deu frutos que persistem até hoje.
Quando pe. Alberico chegou a sua missão, Hanchung acabava de ser
constituída vicariato apostólico autônomo, mas se
encontrava numa situação precária, sofrendo por falta
de padres, estruturas e recursos.
China em crise
A China no fim do século XIX estava atravessando uma profunda
crise, defrontando-se com a modernidade para a qual estava totalmente
despreparada. Esta chegou, primeiro, nos barcos dos comerciantes ocidentais
e, em seguida, nos navios de guerra daqueles países. O encontro
foi traumático, porque os arrogantes ocidentais não entendiam
nem respeitavam a milenar cultura chinesa e invadiram o país, ocupando
portos e porções de território ao longo das costas
e nas cidades mais importantes, constituindo "legações"
extraterritoriais.
Tradicionalmente, o governo em todos os níveis procurava as respostas
aos problemas nos livros dos clássicos do pensamento chinês.
Agora, os contatos com as potências políticas e econômicas
do Ocidente colocavam problemas novos diante dos quais os sábios
dos livros ficavam mudos. A reação foi, como sempre, de
dois tipos: uma corrente reformista pedia a mudança das estruturas
que até então tinham sustentado o Estado; os conservadores,
ao contrário, insistiam na continuidade pura e simples do passado
e na luta dura contra os estrangeiros.
Em geral, os missionários estavam ligados e "protegidos"
pelas legações dos próprios países, aparecendo
como estrangeiros aos olhos dos chineses. Poucos anos depois, o grande
missionário pe. Paulo Manna comentava com clareza profética:
"Até que missões e missionários não romperem
totalmente sua aliança e dependência dos governos estrangeiros
e não renunciarem na China a posições de privilégio
extorquidas com a violência e com ameaças de guerra, a fé
não só não dará passos decididos, mas tornar-se-á
sempre mais detestável ao povo".
Ardor missionário
O primeiro compromisso de pe. Alberico foi o estudo da língua
(só alguns meses), depois foi enviado para o trabalho direto de
evangelização. Ele se colocou totalmente à disposição
dos superiores que, vendo seu ardor e capacidade apostólica, nos
poucos anos de sua atividade, o enviaram para várias missões,
das mais antigas e estruturadas às mais recentes e ainda em formação.
Ele dava preferência ao trabalho entre os não-cristãos,
conseguindo levar muitos ao catecumenato e, depois de batizados, os acompanhava
no aprofundamento da experiência de fé.
A característica mais evidente da personalidade missionária
de pe. Alberico era o ardor evangelizador que não lhe dava sossego:
"Ver a idolatria dominante, o reino de Satanás tão
extenso - dizia ele com a linguagem do seu tempo - ver grandes aglomerados
e saber que em nenhum deles se adora o verdadeiro Deus... causa uma dor
aguda em meu coração. Eu desejaria que adorassem o verdadeiro
Deus. Desejaria me entregar até cansar para sua conversão.
Dentro do meu coração, eu rezava ao Deus das misericórdias
para que levasse este povo à grande luz que enviou ao mundo...
Embora pensasse na maneira de converter estes pobres idólatras,
não sabia o que fazer e, vendo que não podia fazer quase
nada, meu coração se apertava". Mas não eram
considerações que o deixavam parado, ao contrário,
sua atividade apostólica se multiplicava e os resultados não
faltavam.
Em 1900, pe. Alberico foi destinado à missão de Ningqiang
que estava numa situação gravíssima de fome, conseqüência
de um longo período de seca. O governo enviou ajuda à população,
mas algumas das autoridades locais queriam excluir os nomes dos católicos
das listas dos que deviam receber os subsídios. O missionário
interveio para defender os direitos dos fiéis, conseguindo o objetivo,
pelo menos parcialmente; isso, porém, criou reações
de ódio contra sua pessoa entre as classes mais elevadas do lugar.
O apostolado de pe. Alberico, no último ano de sua vida, teve frutos
abundantes, tanto na população como no meio das pessoas
socialmente elevadas; entre elas, um senhor que encontrou casualmente
o missionário numa pensão e ficou impressionado pela sua
personalidade, e um rico muçulmano.
O martírio
Sempre havia sinais de hostilidade contra os estrangeiros e os cristãos,
que chegavam a ser verdadeiras ameaças. Os amigos do padre pressionavam
para que fugisse do perigo, mas ele não os escutava, porque não
acreditava totalmente nos rumores que circulavam entre a população
e, sobretudo, porque não queria abandonar os catecúmenos.
Em 1898, prevaleceu na corte imperial o grupo conservador, que instaurou
uma política de fechamento total, identificando, na intrusão
dos estrangeiros, a raiz de todos os males da China, envolvendo progressivamente
os intelectuais, os nobres e o povo. A astuciosa imperatriz-mãe,
Cixi, nas suas intrigas para consolidar o poder, recorreu à ajuda
de uma antiga seita que no passado fora inimiga declarada da corte, os
boxer. Os membros do grupo eram recrutados entre os marginais e eram iniciados
através de rituais mágicos que os tornariam até invulneráveis.
Os boxers, no decorrer do tempo, tornaram-se um grupo mafioso e seus negócios
foram afetados pelas iniciativas dos estrangeiros, provocando uma reação
de ódio contra eles. Assim, os inimigos se tornaram aliados para
combater o inimigo comum: os estrangeiros e seus amigos (os cristãos,
os comerciantes de produtos estrangeiros e aqueles que os usavam). O extermínio
foi violento: só entre os católicos, em poucos meses, foram
mortos cinco bispos, dezenas de missionários e mais de trinta mil
cristãos.
Pe. Alberico, em julho de 1900, estava na comunidade de Yanzibian. Naqueles
dias, a corte emitiu um decreto contra os estrangeiros, que deu sinal
verde aos boxers. Os poderosos da cidade decretaram a morte do missionário
para 20 de julho. Naquele dia, pe. Alberico reparou a gravidade da situação
e decidiu deixar o lugar. Tarde demais. À noite, quis sair, mas,
poucos minutos, depois o chefe da alfândega foi ao seu encontro,
oferecendo-lhe abrigo na sua casa contra os perigos de uma viagem noturna.
Era uma armadilha. Uma grande multidão reuniu-se ao redor da alfândega
e quando pe. Alberico tentou fugir pela porta traseira, foi preso e logo
duas terríveis pauladas lhe romperam um braço e feriram
profundamente seu rosto. Foi amarrado num pau e arrastado fora da casa.
Tiraram-lhe a roupa e, com uma vela, queimaram os pelos do corpo e a barba.
Naquelas condições, foi arrastado até o rio sobre
um caminho pedregoso. À beira da água lhe cortaram a cabeça
com um serrote enferrujado, fizeram em pedaços o corpo que jogaram
no rio. Depois dele, também onze catecúmenos foram martirizados.
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