Revista "MUNDO e MISSÃO"
Missão Urbana
Pe. Costanzo Donegana Fiodor Dostoievski põe na boca do ateu Ippolit uma pergunta ao príncipe Michkin, protagonista do romance O idiota: - “É verdade, ó príncipe, que uma vez o senhor disse que o mundo será salvo pela beleza? (...) Senhores – gritou em voz alta a todos – o príncipe afirma que o mundo será salvo pela beleza! (...) Que beleza salvará o mundo?”. Normalmente, esta última frase é citada em forma afirmativa e até se tornou um aforismo famoso. Mas aqui mora o perigo: - não se questionar e repetir tais palavras superficialmente, como um modismo, pronunciado com ar de pessoa intelectual ou “espiritual”.
Eram, porém, duas vidas totalmente diferentes. Rachel morava em um bairro residencial de Jerusalém, um ambiente de estilo e cultura ocidentais, de abertura, liberdade e abundância; Ayat sobrevivia no limite do campo de refugiados Deheisheh, onde o medo, os postos de controle, as humilhações, as mortes são rotina. Diante do sofrimento do seu povo, ela se aproximou de extremistas do campo e se ofereceu como “mártir”. Às meninas correspondem duas mães: - a israelense Avigail Levy e a palestina Um Samir al-Akhras, unidas pela tragédia, vivida porém de maneira diferente. Avigail, inconsolável na dor, procura falar com Um Samir, para conhecer o porquê do gesto tresloucado da própria filha. Esta, embora confessasse que, se houvesse chance, teria impedido de toda maneira que Ayat morresse daquela maneira, lê a decisão da filha dentro do sofrimento do povo palestino e se declara orgulhosa por ela ter dado a vida por uma causa tão nobre. Lado a lado, mas... Conheci esta história real através do documentário “Morrer em Jerusalém”, da jovem diretora israelense Hilla Medalia, de grande força emotiva e capacidade de descrever a realidade dos dois povos através das palavras e da pessoa de duas mulheres. Sobretudo no encontro final (indireto, através de vídeo conferência via satélite) entre ambas, no qual, embora cada uma entenda a dor da outra, fica fortemente evidenciada a tensão e o ressentimento que persiste dos dois lados. É um quadro particular, porém é uma janela que se abre e permite entender a situação geral, na sua complexidade e nos obstáculos para a reconciliação. E que serve como pano de fundo à recente viagem de Bento XVI à Jordânia, Israel e Territórios palestinos. Casa de marimbondos “Uma viagem importante, interessante e muito complexa”, assim Pe. Federico Lombardi, diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, definiu-a na véspera. Personalidades vaticanas e líderes cristãos da Terra Santa tinham sugerido ao papa que adiasse a viagem por ponderações e dificuldades políticas.
Na realidade, bastava a simples enumeração dos seguintes nomes para confirmar a complexidade da empresa: - Israel, Palestina, Líbano, Irã, Iraque, Hamas, Hezbollah, fundamentalismo, judaísmo, islã... E, nos meses imediatamente anteriores, aqueceram o ambiente as polêmicas do mundo judeu contra o Vaticano (sobre a Shoah – o Holocausto -, a beatificação de Pio XII) e a própria pessoa do papa (como afiliado, no passado, à Juventude hitleriana), amplificadas, de maneira desproporcional e distorcida, pela mídia. Peregrinação Apesar de tudo isso (ou por tudo isso...), Bento XVI teve a coragem de se enfiar naquele emaranhado, talvez o mais complicado do mundo. Ele estava bem consciente disso, mas tinha também a convicção de ter algo importante a comunicar: - “Vou me fazer peregrino da paz, no nome do único Deus que é Pai de todos. Testemunharei o compromisso da Igreja católica em favor de quantos se esforçam para praticar o diálogo e a reconciliação, a fim de chegar a uma paz estável e duradoura na justiça e no respeito recíproco”. Falar de paz onde existe a violência dos mísseis de Hamas, o muro de Israel que divide e exclui, a vingança, o ódio enraizado nos corações, o medo recíproco, parece realmente uma operação ingênua, sem resultado. Mas foi um gesto de profetismo evangélico, que desafia os cálculos do “realismo” político e religioso. Paz e fé A paz, conforme as palavras do papa, citadas acima, foi
o denominador comum dos seus encontros, discursos, gestos. Ele foi claro.
Honrou “a memória dos seis milhões de vítimas
do Holocausto, definido como Declarou: - “As diferentes tradições religiosas têm em si potencialidades notáveis em relação à promoção de uma cultura de paz, especialmente através do ensino e da pregação dos valores espirituais mais profundos de nossa humanidade comum”. Muro Muito significativo o uso da palavra wall (“muro”: - o papa falava em inglês) em lugar de security fence (“barreira de segurança”) para definir a parede de concreto que divide os dois povos, e comentou: - “É trágico ver que ainda sejam levantados muros... De ambos os lados é necessário grande coragem para superar o medo e a desconfiança, se se quer opor à exigência de vingança por perdas e ferimentos”. É esta esperança na solução do conflito, nos “esforços pacientes e perseverantes daqueles que trabalham pela paz e reconciliação”, o fundamento da mensagem deixada por ele em sua peregrinação. E concluiu a viagem com as seguintes palavras: - “Chega de derramamento de sangue! Chega de confrontos e de terrorismo! Chega de guerra!”. |
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