Revista "MUNDO e MISSÃO"

Missão Urbana

 

Pe. Costanzo Donegana
e-mail.: donegana.costanzo@pime.org

Fiodor Dostoievski põe na boca do ateu Ippolit uma pergunta ao príncipe Michkin, protagonista do romance O idiota: - “É verdade, ó príncipe, que uma vez o senhor disse que o mundo será salvo pela beleza? (...) Senhores – gritou em voz alta a todos – o príncipe afirma que o mundo será salvo pela beleza! (...) Que beleza salvará o mundo?”. Normalmente, esta última frase é citada em forma afirmativa e até se tornou um aforismo famoso. Mas aqui mora o perigo: - não se questionar e repetir tais palavras superficialmente, como um modismo, pronunciado com ar de pessoa intelectual ou “espiritual”.

o dia 29 de março de 2002, Ayat al-Akras, uma jovem palestina de 18 anos entrou num supermercado de Jerusalém e se explodiu. Um segurança do estabelecimento e uma garota israelense de 17 anos, Rachel Levy, também morreram. Ayat e Rachel tinham praticamente a mesma idade, eramestudantes inteligentes e esforçadas e apresentavam grande semelhança física.

Eram, porém, duas vidas totalmente diferentes. Rachel morava em um bairro residencial de Jerusalém, um ambiente de estilo e cultura ocidentais, de abertura, liberdade e abundância; Ayat sobrevivia no limite do campo de refugiados Deheisheh, onde o medo, os postos de controle, as humilhações, as mortes são rotina. Diante do sofrimento do seu povo, ela se aproximou de extremistas do campo e se ofereceu como “mártir”.

Às meninas correspondem duas mães:

- a israelense Avigail Levy e a palestina Um Samir al-Akhras, unidas pela tragédia, vivida porém de maneira diferente.

Avigail, inconsolável na dor, procura falar com Um Samir, para conhecer o porquê do gesto tresloucado da própria filha. Esta, embora confessasse que, se houvesse chance, teria impedido de toda maneira que Ayat morresse daquela maneira, lê a decisão da filha dentro do sofrimento do povo palestino e se declara orgulhosa por ela ter dado a vida por uma causa tão nobre.

Lado a lado, mas...

Conheci esta história real através do documentário “Morrer em Jerusalém”, da jovem diretora israelense Hilla Medalia, de grande força emotiva e capacidade de descrever a realidade dos dois povos através das palavras e da pessoa de duas mulheres. Sobretudo no encontro final (indireto, através de vídeo conferência via satélite) entre ambas, no qual, embora cada uma entenda a dor da outra, fica fortemente evidenciada a tensão e o ressentimento que persiste dos dois lados. É um quadro particular, porém é uma janela que se abre e permite entender a situação geral, na sua complexidade e nos obstáculos para a reconciliação. E que serve como pano de fundo à recente viagem de Bento XVI à Jordânia, Israel e Territórios palestinos.

Casa de marimbondos

“Uma viagem importante, interessante e muito complexa”, assim Pe. Federico Lombardi, diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, definiu-a na véspera. Personalidades vaticanas e líderes cristãos da Terra Santa tinham sugerido ao papa que adiasse a viagem por ponderações e dificuldades políticas.


Bento XVI

Na realidade, bastava a simples enumeração dos seguintes nomes para confirmar a complexidade da empresa:

- Israel, Palestina, Líbano, Irã, Iraque, Hamas, Hezbollah, fundamentalismo, judaísmo, islã...

E, nos meses imediatamente anteriores, aqueceram o ambiente as polêmicas do mundo judeu contra o Vaticano (sobre a Shoah – o Holocausto -, a beatificação de Pio XII) e a própria pessoa do papa (como afiliado, no passado, à Juventude hitleriana), amplificadas, de maneira desproporcional e distorcida, pela mídia.

Peregrinação

Apesar de tudo isso (ou por tudo isso...), Bento XVI teve a coragem de se enfiar naquele emaranhado, talvez o mais complicado do mundo.

Ele estava bem consciente disso, mas tinha também a convicção de ter algo importante a comunicar:

- “Vou me fazer peregrino da paz, no nome do único Deus que é Pai de todos. Testemunharei o compromisso da Igreja católica em favor de quantos se esforçam para praticar o diálogo e a reconciliação, a fim de chegar a uma paz estável e duradoura na justiça e no respeito recíproco”. Falar de paz onde existe a violência dos mísseis de Hamas, o muro de Israel que divide e exclui, a vingança, o ódio enraizado nos corações, o medo recíproco, parece realmente uma operação ingênua, sem resultado. Mas foi um gesto de profetismo evangélico, que desafia os cálculos do “realismo” político e religioso.

Paz e fé

A paz, conforme as palavras do papa, citadas acima, foi o denominador comum dos seus encontros, discursos, gestos. Ele foi claro. Honrou “a memória dos seis milhões de vítimas do Holocausto, definido como
um crime enorme”. Pediu uma solução “justa e duradoura” para israelenses e palestinos, que lhes permita “viver em paz numa pátria que seja sua”, isto é, que os palestinos também tenham direito a uma “pátria soberana”, “segura e em paz com seus vizinhos, dentro de fronteiras internacionalmente reconhecidas” e que Israel tenha o mesmo “direito de existir, de viver em paz e segurança”. Respondeu à acusação de que a religião cause divisões, e rebateu o fundamentalismo, ao reconhecer que a fé é “desfigurada quando constrangida a obedecer à ignorância e ao preconceito, ao desprezo, à violência e ao abuso”.

Declarou:

- “As diferentes tradições religiosas têm em si potencialidades notáveis em relação à promoção de uma cultura de paz, especialmente através do ensino e da pregação dos valores espirituais mais profundos de nossa humanidade comum”.

Muro

Muito significativo o uso da palavra wall (“muro”: - o papa falava em inglês) em lugar de security fence (“barreira de segurança”) para definir a parede de concreto que divide os dois povos, e comentou:

- “É trágico ver que ainda sejam levantados muros...

De ambos os lados é necessário grande coragem para superar o medo e a desconfiança, se se quer opor à exigência de vingança por perdas e ferimentos”. É esta esperança na solução do conflito, nos “esforços pacientes e perseverantes daqueles que trabalham pela paz e reconciliação”, o fundamento da mensagem deixada por ele em sua peregrinação.

E concluiu a viagem com as seguintes palavras: - “Chega de derramamento de sangue! Chega de confrontos e de terrorismo! Chega de guerra!”.

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