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Seca no Nordeste: castigo da natureza ou dos homens?
Hélio Pedroso
Para quem vive no interior desse imenso Brasil, a frase "o que Deus
quiser" soa sempre como uma dor profunda que sai do coração
do sertanejo. Quantas lutas perdidas, quantos sofrimentos, quantas decepções
com as promessas de políticos. O frase muitas vezes tem a conotação
de um íntimo desespero, mas, ao mesmo tempo, de confiança
naquele Deus em que o sertanejo sempre repõe sua última
esperança, guardada no fundo, no cantinho mais escondido. Resignação,
mas não desistência.
E desta vez, a mesma história se repete. Recebemos da zona da seca
- assim podemos chamá-la, visto que a seca já é cíclica
- uma carta dolorida de quem ainda confia em Deus, mas perdeu toda a confiança
nos homens, especialmente nos políticos do lugar, e não
é para menos. Quantos sofrimentos, quantas caminhadas para ter
uma lata de água barrenta que dá cólicas e disenterias,
que não mata a sede, quando na mesma caatinga estorricada pelo
sol, a mansão do político tem piscina até de água
mineral, plantas vicejantes regadas pela antiga Sudene, rezes bem alimentadas
(como a mesma TV mostrou em outras secas).
Fora dali, crianças sedentas, famintas e com verminose, mulheres
ressequidas, sertanejos enrugados pelo inclemência do sol e desesperados,
em busca de uma gota de água para aliviar a sede sua e dos filhos,
dos animais que deveriam providenciar sua subsistência.
Em novembro, os pequenos açudes já estavam secos e barrentos.
O sertanejo está vivendo o enésimo drama da seca nordestina
que dura séculos. Tenta sobreviver de qualquer maneira, esperando
o socorro dos carros-pipas: quando chegam (se é que chegam) é
como festa de Natal que, aliás, este ano não tiveram.
Temos que reconhecer que algumas prefeituras estão tentando algo
como carros-pipas, algumas adutoras, mas tudo insuficiente para atender
a demanda dos flagelados, alguns açudes, ainda inacabados, cujo
resto de água podre nem serve para matar a sede dos animais.
O "Diário do Nordeste", na folha regional do dia 5 de
novembro, relata o que parece um absurdo. "O garoto Francisco José,
de apenas 12 anos, conta que sai de casa todos os dias, do distrito de
Cipó dos Anjos - parece ironia -, para conseguir água para
família. Ele caminha mais de seis quilômetros para conseguir
abastecer a pequena pipa carregada por um jumento. Só que o garoto
não monta no animal. 'O jumento não agüenta o meu peso
pois ele já sofre muito com a seca'. Francisco José diz
que não tem vergonha de fazer o que faz. Afirma que, se pudesse,
trabalharia nas frentes de serviço. O pai dele trabalha nas frentes
de serviço e a mãe é doente".
Na longa história das secas, algumas coisas foram feitas, mas poucas
pelo muito dinheiro que se perdeu nos caudais dos administradores públicos
e da burocracia e o povo continua sofrendo. O amigo que nos escreve diz
que a seca do ano 70 durou 5 anos, depois veio a de 81 que durou mais
cinco anos, a de 92/93 que - ele acha - foi a maior pelo sofrimento e
pelo descaso das autoridades. ... e ele conta que, apesar do pouco que
tinham, os flagelados tudo dividiam entre si, ajudando em particular as
mulheres e as crianças, enquanto muitas vezes os homens fugiam
do sertão para a cidade, em busca de nova vida, mas, freqüentemente,
esqueciam os que tinham deixado para trás.
Quem nos escreve é um morador do município de Dep. Irapuã
Pinheiro, que ele define como o "menor e o mais pobre município
do Estado do Ceará". Tem 10 mil habitante, 6 mil eleitores,
99% são pobres e 85% das famílias vivem abaixo do nível
da pobreza. A fome, a desnutrição infantil, o desemprego
são de rotina no município, ainda mais agravados pela seca
atual na qual já se perderam as lavouras. As frentes de trabalho
aceitam somente uma pessoa de cada família e pagam 90 reais por
mês (contra os bilhões que esse governo liberou para salvar
os bancos e os grande usineiros da mesma região). O mesmo jornal
publica (9/12/98) que fome pode matar 1 milhão no NE conforme denúncia
da CNBB.
Seca: castigo da natureza ou dos homens?
Da paróquia de N. Sra. de Perpétuo Socorro de Acopiara,
Ceará.
Recebemos dessa paróquia e publicamos, na íntegra, o texto
que foi escrito em 24 de dezembro pp., quando a maior parte dos brasileiros
se preocupava com a festa do Natal:
A paróquia de Acopiara está situada no nordeste de Brasil,
alto sertão do Estado do Ceará, semi - árido, região
sujeita a secas periódicas.
Atualmente, estamos vivendo uma das piores secas e falta até pasto
para os animais, com grande parte da população passando
fome. As providências governamentais são insignificantes
e assistencialistas. Dentro de um universo com cerca de 60.000 habitantes,
menos de 3.000 são alistados em frentes de serviço, cada
alistado ganhando R$ 90,00 mensalmente. Como trabalhos: roçar as
margens das rodovias, fazer tijolos, barrar riachos com pedras toscas.
As mulheres, cujos maridos foram embora atrás de sobrevivência,
são discriminadas, não podendo alistar-se, embora sejam
agricultoras e famintas.
Os que moram também na periferia urbana, embora sejam trabalhadores
rurais, não podem alistar-se. Um quadro desolador.
A Paróquia de Acopiara, há anos, começou um trabalho
nas comunidades eclesiais de base rurais (CEBs), de segurança alimentar,
de convivência com o semi-árido e a seca. A primeira etapa
desse trabalho consiste em armazenamento, em silos de zinco, de cereais
produzidos nos invernos, para o ano seguinte ou seca eventual.
A segunda etapa consiste no aumento e diversificação da
produção agrícola, com pequenas irrigações
com motor-bomba, canos e aspersores, com apiários, casa de farinha,
plantação de capim irrigado para o gado, etc.
Quatorze comunidades rurais estão dentro dessa caminhada, umas
na primeira etapa e outras já na segunda. Trata-se de uma experiência
pioneira, promocionalista, que está dando resultados satisfatórios.
Os participantes dessas comunidades têm o que comer.
Temos, porém, 112 CEBs. Ainda falta atender um grande número.
De que necessitamos presentemente? Recursos para a compra de silos, de
motor-bomba, canos, aspersores. Um silo capaz de armazenar 5 sacos de
gêneros custa R$ 30, 00 e um motor -bomba com 40 varas de cano e
6 aspersores sai por volta de R$ 5.000,00.
Solicitamos a generosidade de doações para esses trabalhos
comunitários promocionalistas. Assim atingiremos não só
os efeitos da seca, mas ela será atingida na sua causa.
Prestaremos conta com notas fiscais e recibos dos equipamentos comprados.
É esse o melhor Natal que vocês podem dar às nossas
comunidades carentes.
Com nossos agradecimentos
Pe. Crisares - Pároco
Praça Mons. Coelho n.º 99 - 24/12/98
Caixa Postal n.º 15 - Tel. OXX (88) 725 0227
Acopiara - Ceará - 63560 000
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