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SERVIR AO DEUS VIVO E VERDADEIRO
Sergio Bradanini
Não é necessário falarmos disso, pois eles mesmos
contam qual acolhimento que da vossa parte tivemos, e como vos convertestes
dos ídolos a Deus, para servirdes ao Deus vivo e verdadeiro, e
esperardes dos céus a seu Filho, a quem ele ressuscitou dentre
os mortos: Jesus que nos livra da ira futura (1Ts 1,9-10).
Em nossos dias, há quem freqüentemente diga, após
longas e demoradas análises sociais e religiosas, que uma das principais
características do mundo moderno é o fenômeno do ateísmo,
da indiferença religiosa ou do agnosticismo. Há também
quem diga que o ser humano é uma 'formidável máquina
que produz ídolos'. Não se trata de saber quem tem ou não
tem razão, se o ateísmo ou o politeísmo, mas de notar
que as pessoas que se identificam com essas categorias manifestam, geralmente,
a tendência a transformar a própria situação
num artigo de fé obrigatório para todos. Além do
mais, quando não se acredita mais em Deus, isso não significa
que não se acredita em nada, mas acaba-se acreditando em tudo,
daí a multidão e a variedade de "deuses" produzidos
para o próprio uso e consumo!
Se o ambiente em que vivemos manifesta estes aspectos, então temos
um motivo a mais para retomarmos o ponto fundamental de referência
da Igreja primitiva expresso em 1Ts 1,9-10. Nesse texto, Paulo fala da
conversão dos pagãos que abandonaram o culto aos ídolos
para se voltarem ao Deus vivo e verdadeiro. Sem dúvida alguma,
o apóstolo apresenta uma formulação antiga da fé
cristã em que aparece em primeiro plano o kérygma, isto
é o anúncio da morte-ressurreição de Jesus
(cfr.1Ts 4,14;5,10). Esse anúncio, proclamado por Paulo como acontecimento
de salvação, é confirmado, logo adiante, pela expressão
"Nós vos proclamamos o kérygma do evangelho de Deus"(1Ts
2,9).
A proclamação desse fato central da fé cristã
implica, necessariamente, o apelo à conversão. Trata-se
de uma dimensão vital, pois o termo conversão exige uma
mudança de conduta ou, até mesmo, uma nova e mais radical
orientação de comportamento. Se de um lado significa voltar-se
para Deus, do outro lado, exige necessariamente o afastamento dos ídolos.
Este fato é mais significativo ainda porque 1Ts1,9-10 é
o único texto do kérygma primitivo a mencionar a conversão
"ao Deus vivo e verdadeiro", isto é, ao Deus de Israel.
Em todo caso, o conteúdo desta proclamação, para
Paulo e toda a Igreja primitiva (cfr. At 14,15;26,18), é algo inegociável
e indiscutível, representa a condição sem a qual,l
não existe mais a fé cristã. Uma vez que o anúncio
evangélico é dirigido aos pagãos, é necessário
precisar que a fé em Jesus morto e ressuscitado é inseparável
da fé no Deus já revelado na experiência religiosa
do povo de Israel, como o Deus único e verdadeiro.
Paulo, nesse sentido, mostra sua fidelidade à tradição
profético-sapiencial: os ídolos não podem salvar
porque, na realidade, não existem, são mentiras, são
falsos: "Os ídolos não são nada" (Sl 81,10).
Em contraposição, só o Deus da tradição
bíblica é verdadeiro e autêntico, ele é o Deus
vivo e por isso mesmo é o único que pode dar a vida e ser
o salvador da humanidade. O pano de fundo da proclamação
evangélica torna-se ainda mais claro, ao lembrarmos que a pregação
profética era dirigida às nações pagãs,
para que se voltassem para o Deus vivo (Is 45; Jr16,19ss).
Ora, "servir ao Deus vivo e verdadeiro" significa reconhecê-lo
como único Senhor. Entretanto, a idolatria, o ateísmo e
outras características de ontem e de hoje nunca são superadas
de uma vez por todas. Elas renascem continuamente sob diversas formas.
Quando se deixa de servir ao único Senhor, surgem e proliferam
todos os tipos de outros senhores.
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