Revista "MUNDO e MISSÃO"

Teologia

Retomando a conversa anterior

o artigo anterior, vimos como era a liturgia no primeiro milênio da era cristã. Vimos que, naquela época, os cristãos tinham por costume garantir o essencial, quando se celebrava a divina Liturgia, na missa e demais sacramentos.

De forma elegante e, ao mesmo tempo, simples, sabiam garantir a centralidade do mistério pascal nas celebrações. Viviam a celebração da Liturgia como presença muito especial do Deus da vida, pois nela sabiam-se 'tocados' pelo mistério pascal do Senhor e, ao mesmo tempo, sabiam-se 'apalpando' o mistério de Cristo que nos salva e dá coragem.

Compreendiam a assembléia litúrgica, em Cristo, como "a celebrante" do mistério. A participação ativa, consciente e plena de todos, na celebração, era uma necessidade vivida pela maioria. O contato direto de todos com a Palavra de Deus, proclamada na celebração, era um fato do qual não se abria mão. O jeito de celebrar, adaptado aos diferentes povos com sua cultura, era uma realidade incontestável.

A LITURGIA ROMANA NO SEGUNDO MELÊNIO: MUDANÇAS DE ACENTO

Agora, olhando a história da Liturgia no segundo milênio, constatamos que, sobretudo por influência da mentalidade dos povos franco-germânicos (a partir do século 9) e pelo posterior centralismo romano, cada vez mais rígido, sem esquecer os graves problemas que amargaram a vida do povo (pestes, epidemias, guerras, crises religiosas etc.), aconteceram significativas mudanças de acento na compreensão e vivência da Liturgia. Isto é importante saber, pois vai nos ajudar a entender melhor o porquê da reforma litúrgica promovida há 40 anos pelo Concílio Vaticano II, sobre a qual trataremos no próximo número desta revista.

1. No segundo milênio, pela maneira como se passou a celebrar Liturgia (sobretudo a missa), o povo não se sente mais como assembléia, povo sacerdotal, corpo de Cristo, sujeito ativo da celebração. O padre é que aparece como o único celebrante da Liturgia, transformada num fato eminentemente clerical. A maioria do povo já não participa mais. Cada qual "na sua", as pessoas apenas assistem (sem entender) às cerimônias feitas pelo padre lá no altar distante, que reza de costas, em latim, tudo em voz baixa.

2. Por isso, em lugar da Liturgia como celebração do mistério pascal, agora inacessível ao povo, acentuam-se mais as devoções (devoção aos santos e ao Santíssimo Sacramento). Para uma grande maioria de católicos romanos, as devoções passaram a ocupar o lugar da Liturgia. Para eles, o centro de espiritualidade cristã não é mais tanto o mistério pascal celebrado na Liturgia, mas os santos e o Santíssimo Sacramento, venerados pelas práticas devocionais (novenas, promessas, procissões, adorações, etc), onde o povo sofrido busca apoio.

3. Os próprios sacramentos, que antes eram compreendidos e vividos como celebração do mistério pascal, agora são vistos preferencialmente como "remédio" para curar os males, ou preveni-los, e manter uma boa relação de amizade com Deus, para escapar do perigo do inferno. Conseqüentemente, a Igreja, em vez de ser um espaço de vivência comunitária do mistério pascal tornado presente pela Liturgia, é vista antes como uma espécie de grande supermercado religioso, uma enorme farmácia espiritual, com seus agentes de saúde credenciados na qualidade de ministros ordenados, para onde o povo acorre em suas necessidades individuais.

4. E mais: a centralidade da Palavra de Deus proclamada na Liturgia, tão querida pelos cristãos do primeiro milênio, agora no segundo milênio praticamente cai por terra. Tanto que a Palavra chega a nem ser mais proclamada para a assembléia na Liturgia. O padre apenas a lê em voz baixa para si, de costas, lá no altar distante. E o povo?

5. Em lugar da participação plena na missa pela sagrada comunhão, adotou-se, no segundo milênio, o costume popular de "ver e adorar" a hóstia consagrada. Bastava "ver" a hóstia e "adorá-la", e o povo já se dava por muito satisfeito. O povo passou a comungar muito raramente. E quando o fazia, às vezes, era mais por causa da "lei da Igreja" (vinda do IV Concílio de Latrão, em 1215: "comungar ao menos uma vez por ano!") ou por devoção.

6. Em lugar da nobre simplicidade da Liturgia romana própria do primeiro milênio, em sua forma de celebrar o mistério, a Igreja, depois do Concílio de Trento (século XVI), contrapondo-se à Reforma protestante, passa a revestir a Liturgia com a extravagante pompa barroca, em que prevalece o luxo, o triunfalismo, o enaltecimento exagerado dos elementos exteriores do culto, relegando o essencial para o segundo plano.

7. O uso da língua e costumes próprios das culturas dos povos, na celebração do mistério pascal, cede lugar (no Ocidente) ao centralismo de Roma que obriga a todos adotarem rigorosamente o modelo romano, nos seus moldes medievais e pós-tridentinos de celebrar a Liturgia, com todas essas mudanças de acento.

8. Como se vê, aconteceram no segundo milênio, realmente, significativas mudanças de acento na compreensão e vivência da Liturgia: do essencial para aspectos acidentais, do teologal para o devocional, do eclesial-comunitário, participativo, para o individualismo religioso, do mistério realmente celebrado para o cumprimento meramente exterior dos ritos, da adaptação às culturas para a uniformidade rígida e obrigatória para todos, da nobre simplicidade para cerimoniais complicadíssimos, incompreensíveis.

9. Dá a impressão de que o segundo milênio, do ponto de vista litúrgico, foi totalmente negativo. Foi e não foi! Foi, porque a Liturgia foi colocada longe do alcance do povo. Uma grande perda! E não foi negativo, porque o povo, longe da Liturgia, soube sabiamente criar uma enorme força alternativa de resistência frente a todos os males. Como? Apoiando-se nas práticas devocionais.

COM ESTA LITURGIA NÓS FOMOS EVANGELIZADOS ...

Eis algumas características da vivência e compreensão da Liturgia no segundo milênio, com significativas mudanças de acento em relação à rica tradição do primeiro milênio, com as quais fomos evangelizados no Brasil. Esta foi um pouco da Liturgia que herdamos e que se enraizou no imaginário de nossa gente, e que passou a compor, pelo catolicismo popular (cf. Puebla 444-456), o mosaico da nossa rica tradição cultural a ser evangelizada.

No próximo artigo, veremos como o Concílio Vaticano II propõe resgatar todo o essencial da Liturgia que, de certa maneira, havíamos colocado em segundo plano no segundo milênio da era cristã. Título do artigo: "Por uma celebração mais autêntica e participativa da Liturgia: o resgate do Concílio Vaticano II".

Frei José Ariovaldo da Silva, doutor em Liturgia,
é professor do Instituto Teológico Franciscano (ITF),
em Petrópolis (RJ). E-mail: ariovaldo@itf.org.br

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