Revista "MUNDO e MISSÃO"

Teologia

1. Iniciando a conversa

urante o primeiro milênio da era cristã, havia, normalmente, uma ótima participação de todos os cristãos na liturgia. A Missa era realmente sentida e vivida como uma ceia (a Ceia do Senhor!), da qual todos faziam questão de participar. Comer dessa ceia era uma questão de honra. Ir à Missa e apenas ficar olhando os outros comer era visto até como algo meio constrangedor. No segundo milênio, as coisas viraram. Houve época em que os cristãos de muitas comunidades, praticamente, nem comungavam mais ou, se comungavam, era lá uma vez ou outra.


Cena de Emaús na interpretação de Cavaggi National Gallery, Londres

Iam à Missa no domingo, mas não comiam da Ceia do Senhor. Apenas se contentavam em “ver a hóstia”, que então era comida só pelo padre. E isso virou até costume, durante todo o segundo milênio. Com o Concílio Vaticano II, há 40 anos, a Igreja busca a todo custo resgatar o valor da participação plena na Missa através da comunhão, que havíamos perdido durante todo o segundo milênio. Isso aparece nas orientações hoje dadas pela Igreja, nos seus livros oficiais sobre a comunhão.

Tenho observado que tais orientações não foram ainda assimiladas plenamente em muitas comunidades do nosso imenso Brasil. Vejamos, pois, algumas delas e qual o seu sentido, para que o espírito do Vaticano II seja deveras implantado entre nós, e assim possamos viver o que Cristo pediu para fazer: “peguem o pão, peguem o vinho, dêem graças. Depois, tomem e comam, tomem e bebam. Isto é o meu corpo entregue em favor de vocês. Este é o meu sangue derramado para o perdão de vocês. Façam isto em memória de mim” (cf. Mt 26,26-28; Mc 14,22-24; Lc 22,19-20; 1Cor 11,23-26).

2. Como deve ser o pão para a comunhão?

Durante todo o segundo milênio, nos acostumamos a celebrar a Missa e comungar com hóstias tão pequenas e tão fininhas, que nos dificultaram ver e sentir nelas realmente um pedaço de pão. Conseqüentemente, nos dificultaram também sentir que, ao comungar, estamos realmente participando de uma ceia, nossa Ceia com o Senhor. Por isso, para resgatar e garantir este sentido de ceia deixado por Cristo na última ceia, hoje, a Igreja nos dá a seguinte orientação: “A verdade do sinal exige, que a matéria da celebração eucarística pareça realmente um alimento.

Convém, portanto, que, embora ázimo e com a forma tradicional, seja o pão eucarístico de tal modo preparado, que o sacerdote, na Missa com o povo, possa de fato partir a hóstia em diversas partes e distribuí-las ao menos a alguns fiéis. Não se excluem, porém, as hóstias pequenas, quando assim o exigirem o número de comungantes e outras razões pastorais. O gesto, porém, da fração do pão, que por si só designava a Eucaristia nos tempos apostólicos, manifestará mais claramente o valor e a importância do sinal da unidade de todos num só pão, e da caridade fraterna pelo fato de um único pão ser repartido entre os irmãos”.

São orientações que estão no Missal Romano, no n. 283 da sua Instrução Geral. Como se vê, trata-se de uma exigência da verdade do sinal. Em outras palavras, sentir que estamos participando de uma Ceia (a Ceia do Senhor) exige que o pão usado se pareça realmente com um alimento, que tenha um formato e tamanho tal que possa ser partido em diversas partes e distribuído ao menos a alguns fiéis. O que não exclui o uso de partículas menores, quando as circunstâncias o exigirem.

Mas, o gesto da fração do pão (partir e repartir o pão!), este não pode ser descuidado. Primeiro, porque era o nome mais originário da Eucaristia. Depois, porque o gesto, como orienta a Igreja, manifesta “o valor e a importância do sinal da unidade de todos num só pão, e da caridade fraterna, pelo fato de um único pão ser repartido entre os irmãos”.

3. Comungar na Missa com as hóstias consagradas do sacrário?

Em muitas comunidades, ainda há o costume, próprio do segundo milênio (quando se deixou de ver a Missa como um momento de Ceia com o Senhor), de fazer o povo todo comungar com as hóstias guardadas no sacrário. A Eucaristia, então, é celebrada só com uma hóstia grande, a ser consumida só pelo padre. E o povo? A Igreja, à luz das orientações do Concílio Vaticano II, viu que este costume empobrece o sentido da participação plena do povo no sacrifício celebrado.

Então, a partir dessa constatação, dá a seguinte orientação: “É recomendável que os fiéis recebam o Corpo do Senhor em hóstias consagradas na própria Missa e participem do cálice nos casos previstos, para que, também através dos sinais, a Comunhão se manifeste mais claramente como participação do Sacrifício celebrado.” Também estas orientações estão no Missal Romano, no n. 56h da sua Instrução Geral. Tais orientações têm um sentido antropológico e um sentido teológico.

Explico-me: quando você oferece um jantar, é evidente que nunca dá para as pessoas a comida do almoço ou jantar anterior, guardada na geladeira. O bom do jantar (sua celebração) é participar do alimento preparado, com todo carinho, especialmente para a ocasião. Assim é com Deus. Para cada Missa, Ele prepara, com carinho, um alimento especial para a ocasião. E seria normal que todos e todas participassem do sacrifício celebrado nessa ocasião, representado pelo pão consagrado na ocasião.

Inclusive que, nos casos previstos, todos possam participar também do cálice. Tudo isso para que, como orienta a Igreja, “a Comunhão se manifeste mais claramente como participação do Sacrifício celebrado”.

4. Mas, então, para que guardar hóstias consagradas no sacrário?

Sobre isso a Igreja também dá suas orientações, quando diz: “A finalidade primária e primordial de conservar a Eucaristia fora da Missa é a administração do Viático (ou comunhão para os doentes). São fins secundários: a distribuição da comunhão (na Missa) e a adoração de nosso Senhor Jesus Cristo presente no Sacramento...”. Tais orientações se encontram num Ritual da Igreja intitulado: “A sagrada comunhão e o culto do mistério eucarístico fora da Missa”, no n. 5 de sua Introdução.

Portanto, a Eucaristia é conservada no sacrário, em primeiro lugar, para ser levada aos doentes. Esta é a finalidade primeira. Só em segundo lugar é guardada para ser distribuída na Missa e para a adoração do Santíssimo. Isso é importante frisar, porque muita gente ainda pensa o contrário...

Visite as outras páginas

[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO] [MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E. - Missio] [Noticias] [Seminários] [Animação] [Biblioteca] [Links]

Voltar