Revista "MUNDO e MISSÃO"

Teologia

ela “moda”, pela maneira de vestir, nem nos damos conta que vivemos numa sociedade secularizada que há muito expulsou o Sagrado do seu convívio. Isto é, a veste é a visualização do invisível, a forma do espírito que habita naquele corpo. Se fosse só pela moda, pela mídia, pela propaganda, “seríamos comprados”, assim como deveríamos “vender o nosso produto”. A vida nada mais seria que uma sedução comercial. No entanto, o cristão que também está, corpo e alma, nesse “mundo fashion”, sabe (ou pelo menos deveria saber) que o Espírito que nele habita é outro. Com isso não queremos dizer que o cristão não deva ser elegante e que deva usar roupas feias, padronizadas, como se pertencesse a alguma seita e devesse vestir-se de maneira homogênea, sem expressão própria.


“Quão grande é, Senhor, vossa bondade, que reservastes para os que vós temem, como tratais aos que refugiam em vós, aos olhos de todos. Sob a proteção da vossa face os defendeis... vós os ocultais em vossa tenda... Bendito seja o Senhor que usou de maravilhosa bondade, abrigando-me em sua cidade fortificada”

Salmo 30, 20-22

ontrário ao que se diz corretamente:
“O hábito não faz o monge”; o verdadeiro e esquecido ditado cristão é “o hábito faz o monge”, isto é modela-o, é sinal da verdadeira identidade de quem o carrega, embora não se deixa de ser homem como todos os homens e pecador. A veste é sinal e símbolo, lembrança de que “pertencemos Àquele que nos investiu”.

É sinal da beleza à qual somos investidos desde o Batismo, da imagem verdadeira que somos, além do “feio que aparentamos”. Já que existe uma verdade em nós, ela se expressa pela beleza e nos dá a paz. Não é verdade que somos completamente iguais aos demais cidadãos, aflitos, desesperados, gananciosos, como se não fôssemos já “salvos pelo Mistério que carregamos”.

Iguais aos demais homens, mas cidadãos da Pátria Celeste. Um provérbio chinês nos diz que “um pouco de perfume fica sempre na mão de quem oferece rosas”. Quando somos tocados por Deus, através da Mãe Igreja, acontece coisa semelhante: somos impregnados pelo Mistério invocado.

Percebemos isso nas palavras da Constituição Sacrosanctum Concilium: “ela é ao mesmo tempo, divina e humana; visível, mas ornada de dons invisíveis... Nela o humano se ordena ao divino, o visível ao invisível”. Assim acontece quando a Igreja assume a veste na sua liturgia e dá-lhe uma amplidão espiritual, torna-a símbolo de uma realidade mais profunda. Torna-se carregada de mistério.

A beleza divina é discreta, é proteção e sinal de participação à glória do Senhor que nos dá a vida. A veste cristã, do batizado, do consagrado, do partícipe aos sagrados mistérios deve revelar essa glória. Além do mais, a veste, esteticamente falando, arruma os corpos deformados, dá-nos elegância, prazer em sermos já, aqui e agora, uma faísca do que seremos, um dia, em plenitude. E mais: iguala-nos. Ninguém é diferente de ninguém “aos olhos do Altíssimo”. Além disso, o uso do essencial, sem acúmulos supérfluos, evidencia a pobreza evangélica.

o Gênesis ao Apocalipse, a veste e a nudez serão sinais de bênçãos e pecado, de aliança e ruptura. A veste será sinal de uma dupla realidade: ela afirma a dignidade do homem decaído e a possibilidade de revestir uma glória perdida. Adão e Eva, criados, estavam envoltos pela graça como uma veste. Com o pecado “seus olhos se abriram e perceberam que estavam nus” (Gn 3, 7). A partir daí, o homem sente, diante da presença divina, que está nu, falta-lhe algo. Perdeu “a veste” que justifica sua intimidade com Deus.

Sua nudez é como espelho que não reflete mais a imagem de Deus, mas, sim, fragilidade, vulnerabilidade, cobiça. Adão e Eva, ao se sentirem nus, fizeram para si uma veste com folhas de figueira. O próprio Deus, antes de expulsá-los do Paraíso, cobre-os com vestes: “O Senhor Deus fez para o homem e sua mulher túnicas de peles e os vestiu” (Gn 3,21). O profeta Ezequiel, ao falar da aliança de Javé com seu povo, usa a figura da veste: “estendi a orla do meu manto sobre ti e ocultei a tua nudez” (Ez 16,8). Quando Israel torna-se infiel, traduz essa infidelidade com a imagem de nudez. Na história da Salvação, procura-se recuperar a intimidade paradisíaca, usando a imagem da “veste de salvação e manto de justiça, como uma noiva que se enfeita com suas jóias” (Is 61, 10).

Assim, para que Israel e toda a humanidade seja “revestida”:

– “O Salvador será despido de suas vestes” (Mt 27,35 e Jo 19,23);
– será Ele entregue à paródia de uma investidura real na sua Paixão (Jo 19,2);
– na sua Transfiguração, sua carne se mostrará gloriosa, revestida de vestes resplandecentes, glória incorruptível do Filho de Deus;
– na sua Ressurreição, o Cristo readquire a veste incorruptível para o homem, sendo o seu corpo ressuscitado envolto em glória divina.

Todo homem é chamado a entrar nessa transfiguração, nessa divinização. Segundo o apóstolo Paulo, “o homem deseja ser revestido de incorruptibilidade... gememos porque não queremos ser despidos de nossa veste, mas revestir a outra sobre esta, a fim de que o que é mortal seja absorvido pela vida” (2 Cor 5,4). O Cristo tira a humanidade da nudez à que a levara o pecado de Adão. A humanidade é revestida pelo Cristo no Batismo. Ele despe o homem velho e reveste o homem novo (Cl 3,9-10; Ef 4,20-24; Gl 3,27 e Rm 13,14). A imposição da veste sagrada no religioso, no batizado, na Primeira Eucaristia, está ligada à uma infusão da graça semelhante à do Batismo.

Na tradição da Igreja, receber o hábito, a veste, corresponde para o discípulo à “participação ao Mistério, à comunhão com os demais...”. A veste, como o véu, é forte sinal de presença a “alguém”, ao Sagrado no humano. As várias vestições são etapas de uma vestição que, progressivamente, leva-nos à plenitude do Mistério da Transfiguração. O Apocalipse falará da esposa que está pronta para as núpcias do Cordeiro, “revestida de linho puro, resplandecente” (Ap 19, 7-8).

“Na Jerusalém Nova é a esposa que se enfeitou” (Ap 21, 2). “Igualmente, vinda de grande tribulação, lavou suas vestes no sangue do Cordeiro” (Ap 7, 14 e 2, 14). Assim, a esposa do Cordeiro recupera a veste perdida em Adão / Eva e se torna novamente como um espelho, capaz de refletir a glória de Deus. Na história da Igreja, o religioso, ao se vestir ou paramentar-se, além de fazer uma breve oração, beija a veste, sinal de “revestir-se do Cristo”. O simples tecido não é adorno, mas “complemento da carne humana transfigurada ou em vias de...”.

"A transfiguração" Teófano, o grego século 15

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