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BRASIL: 11/12/2008
Direitos Humanos
Declaração é um alerta
Justifica-se a alegria de celebrar
os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos do Homem
Quando, no dia 10 de Dezembro de 1948, era aprovada
pela Assembléia das Nações Unidas, a Humanidade,
através dos seus representantes, proclamava que só pelo
reconhecimento da dignidade fundamental de cada pessoa se poderia atingir
a realização do sonho sempre vivo no mais profundo do ser
humano:
- a liberdade, a paz e a alegria de viver.
Era o respirar de novo, depois do pesadelo de mortes
e atrocidades da 2.ª Guerra Mundial; era a manifestação
de uma Humanidade não rendida ao desânimo da sua própria
fragilidade; era um passo, não o único nem o primeiro, mas
importante nessa caminhada para a civilização que vai ultrapassando
a atitude meramente instintiva perante quem está ao lado. A efeméride
deve ser celebrada. Obviamente não para se ficar no celebrativo,
mas para dar um novo alento a essa obra de humanização jamais
concluída. E porque é inacabada e entregue às mãos
de cada um, seria um contra-senso ficar-se a contemplar o passado, por
mais belo e nobre que ele seja. Ela está viva no seu espírito,
embora nunca perfeita na sua aplicação. Mas é o espírito
que remete para o fundamento, para o núcleo vivificador da mesma.
Esse núcleo cruza-se com tudo aquilo que
faz parte desta cultura ocidental, marcada profunda e indelevelmente por
aquilo que é o coração da própria religião
cristã:
- um Deus que não é distante, que se apresenta
como amigo, como um pai e que, nessa qualidade, convida à comunhão,
a qual não se realiza sem a comunhão com o próximo.
E, ainda que alguém se considere não crente,
esse dado é cultural, faz parte do húmus onde a planta do
seu ser encontra alimento, o que já pode não acontecer com
quem vier de outras culturas. Para o crente, ultrapassa-se a dimensão
cultural para se assumir a dimensão da amizade que compromete a
pessoa ao ponto de descobrir Deus na pessoa do seu irmão. A Declaração
não é um sinal perfeito e definitivo a marcar em cada momento
o passo que se segue; é apenas um sinal que aponta a direção,
mas constantemente exigindo o esforço do discernimento. Questões
relacionadas com a ação humanitária, com a ingerência,
com as necessidades básicas de gente desprotegida, têm que
forçar a abertura de portas não previstas, mas exigidas
pela fidelidade ao seu espírito.
O pesadelo dos “atos de barbárie que revoltam
a consciência da Humanidade”, referido no Preâmbulo,
continuou a visitar-nos na última década com o recrudescer
do terrorismo, com as guerras no Afeganistão, no Iraque, nos territórios
do ex-bloco soviético, com os conflitos étnicos na região
dos Grandes Lagos, com o atual drama no Darfur e, hoje mesmo, na R.D.
do Congo. Em tais cenários os direitos fundamentais e as diferentes
expressões da liberdade são esquecidos ou espezinhados.
Se a Declaração é universal e, ainda mais, se hoje
podemos tomar conhecimento da barbárie em tempo real, não
se pode invocar o desconhecimento para justificar a não intervenção
e alheamento.
Há que descobrir maneiras para fazê-lo,
a todos os níveis, sabendo que a barbárie acontece por interesses
particulares e obscuros, nomeadamente pela cobiça de matérias
primas ou bens essenciais, pela sede de controlo político e estratégico,
pelo fome de lucro a todo o custo, especialmente através do negócio
das armas, ainda que isso implique a morte dos inocentes. É um
imperativo para as autoridades, mandadas pelos cidadãos, que as
obriga a procurar meios de estancar essa torrente de morte, controlando
negócios e acionando meios diplomáticos para que aos carrascos
dos seus irmãos não seja permitido pavonear-se no palco
da vida pública como que se de honestos cidadãos se tratasse;
eles têm que ser chamados pelos seus nomes; fazer de conta traduz
conivência e cobardia.
Mas também ao nível local há que
estar atento. As ofensas aos direitos podem ser discretas; mas não
deixam de ser ofensa. É o que se passa no âmbito da pobreza.
Por isso a Comissão Nacional Justiça e Paz apresentou uma
petição à Assembléia da República para
que a mesma declarasse que a pobreza constitui uma violação
dos direitos humanos; a petição foi aceite e assim aprovada
uma resolução; é um compromisso dos nossos representantes
assumindo a realidade de que um em cada cinco portugueses vive em situação
de pobreza, o que impede o desabrochar das condições mínimas
de dignidade e de bem-estar. O importante é que isto não
constitua mera manifestação de boa vontade. Ao cidadão
cumpre estar alerta e tornar, também nestas situações,
a Declaração viva e atual, pressionando os seus representantes
a que ocupem o seu lugar na realização do sonho de todos
e de cada um, “o ideal comum a atingir por todos os povos e todas
as nações”.
CNBB
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