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MUNDO: 19/12/2008
Direitos Humanos
Violentada e respeitada
Completei 60 anos a 10 de dezembro. Sou um dos mais destacados
consensos entre os associados à ONU. Fui aprovada por 192 países.
No entanto, raros os que me respeitam. Infelizmente não recebi,
até hoje, aprovação do Estado do Vaticano. Logo ele,
que se propõe a defender os valores encarnados por Jesus, que coincidem
com os meus. Nasci no pós-guerra. O mundo ansiava por justiça
e paz.
Ao longo desses 60 anos, sofri todo tipo de violações:
- a Coréia dividiu-se em duas; o Vietnã
teve sua população civil bombardeada pela França
e pelos EUA; empresas usamericanas de produtos químicos - as mesmas
que monopolizam as sementes transgênicas - chegaram ao perverso
requinte de criar o agente laranja e o napalm, destinados a intoxicar
letalmente seres vivos.
Fui violentada na África do Sul, vítima
do apartheid, e no Oriente Médio, onde ainda sofro em decorrência
de preconceitos étnicos e religiosos. Na continente africano, todos
os meus preceitos são ignorados, por culpa do neocolonialismo e
da indiferença das nações ricas. Estas só
se lembram das africanas quando se trata de vender suas armas. Em Guantánamo,
o governo dos EUA promove descarado acinte contra todos os meus princípios.
No Iraque e no Afeganistão, os excessos praticados são ainda
mais graves. Padeci também na União Soviética e na
China. Sob a bandeira da nova sociedade, reprimiram manifestações
de pensamento e religião; decretaram a censura; perseguiram opositores
políticos; implantaram, em nome do socialismo, um capitalismo de
Estado. Na América Latina tenho uma trágica trajetória.
Ditaduras militares seviciaram-me de todas as
maneiras:
- prisões arbitrárias, torturas, desaparecimentos,
banimentos, assassinatos, seqüestros de crianças...
Sofri massacres em El Salvador, Guatemala, Colômbia
e Peru. Grupos paramilitares se vangloriam de violar-me. E em alguns países,
como é o caso do Brasil, meus transgressores continuam impunes.
Felizmente a OEA me leva a sério e trata de apurar denúncias
que recebe. Hoje, sou duramente vilipendiada pelo narcotráfico
e o terrorismo. As drogas corroem profundamente a dignidade humana; o
terrorismo, tanto de Estado quanto de grupos fundamentalistas, inocula
no ser humano o medo e a ira como condição existencial.
No Brasil, estou longe de merecer o devido respeito. Muitos nem querem
ouvir falar de mim. Julgam que sou mulher de bandido.
Sou ignorada pelos policiais que torturam; e também
pelos que praticam exploração sexual de crianças,
discriminação de negros e indígenas, preconceito
à homossexualidade e agressão às mulheres. Sofro,
de modo especial, em decorrência da estrutura injusta que perdura
no país, sobretudo a desigualdade social acentuada pela falta de
reforma agrária. O latifúndio figura entre os meus principais
inimigos, ao lado da devastação ambiental. Contudo, há
avanços. Comissões de Justiça e Paz se multiplicam
pelo país. Inúmeras ONGs se dedicam à minha causa.
O governo Lula deu status de ministério
à Secretaria Especial dos Direitos Humanos, à frente da
qual se encontra um homem íntegro e corajoso:
- Paulo de Tarso Vannuchi. Nas escolas, sou cada vez
mais estudada.
Há um setor da Justiça atento às
ameaças e violações que sofro. As leis Afonso Arinos
e Maria da Penha inibem e/ou punem uma parcela de meus agressores. A aprovação
dos estatutos da Criança e do Adolescente, e do Idoso são
avanços que me favorecem. Se muitos ainda não me respeitam
mundo afora, ao menos já não ousam falar mal de mim abertamente.
Empresas e governos se sentem obrigados a levar em conta também
meus direitos ecológicos, sociais e raciais. Sou um projeto de
futuro. Só na medida em que eu for assumida e respeitada, a humanidade
haverá de desfrutar a felicidade como experiência pessoal
e fenômeno coletivo.
Meu nome
é Declaração Universal dos Direitos Humanos.
[Autor, em parceria com Moacyr Scliar e Veríssimo, entre outros,
de "O desafio ético" (Garamond), entre outros livros].
Frei Betto - Escritor e assessor de movimentos sociais
Adital
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