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PAQUISTÃO: 17/11/2008
Testemunho
Fiéis a cristo apesar das ameaças fundamentalistas
Entrevista
a Dom Lawrence Saldanha, arcebispo de Lahore
Ameaças, torturas e terror:
- os extremistas muçulmanos exercem uma forte
pressão sobre a minoria cristã no Paquistão, mas,
apesar disso, a maior parte dos crentes em Cristo permanece solidamente
ancorada em sua fé. Alguns deles, contudo, se vêem obrigados
a passar ao Islã, denuncia nesta entrevista concedida à
Zenit o arcebispo de Lahore e presidente da Conferência Episcopal
do Paquistão, Dom Lawrence Saldanha. A entrevista aconteceu em
Berlim, depois de que o prelado apresentasse o novo «Informe sobre
a Liberdade Religiosa no Mundo», redigido pela associação
Ajuda à Igreja que Sofre (AIS).
– Em uma carta enviada em setembro, o senhor lançou
um chamado ao neo-presidente do Paquistão para que defenda os direitos
das minorias.
Que resposta obteve?
Dom Lawrence Saldanha:
- Ele não disse nada. Recebeu minha carta, que
espero tenha surtido algum efeito, mas não se pronunciou abertamente
sobre a questão. Creio que, de qualquer forma, já é
um fato positivo que a tenha aceitado.
– O problema da discriminação
no Paquistão é ainda tão evidente como no passado?
Dom Lawrence Saldanha:
- Sim, é, porque hoje a causa são os extremistas
muçulmanos, os fundamentalistas islâmicos, que querem impor
suas idéias sobre o Islã. Sustentam concepções
muito rígidas e pretendem sobretudo que se introduza o direito
islâmico. Por exemplo, queriam que as mulheres usassem véu
e que os homens deixassem a barba crescer. Se dependesse deles, a música
seria abolida, assim como o cinema e a televisão. Mas quem paga
por este extremismo não são só os cristãos,
e sim também os outros muçulmanos.
- Em 2007, houve várias tentativas de
aprovar leis que proibissem a mudança de religião. Qual
é a situação atual?
Dom Lawrence Saldanha:
- Não foram introduzidas ainda, mas sempre poderia
acontecer.
Deste modo, todos – inclusive os próprios
muçulmanos – teriam muitas dificuldades para mudar a própria
religião. Hoje acontece cada vez mais freqüentemente que os
extremistas pressionam os cristãos para passar ao Islã.
Isso é para nós um problema sério. Estão fazendo
de tudo para converter ao Islã os cristãos e os hindus.
Há moças que foram obrigadas a casar-se com muçulmanos
e a mudar de religião. Uma coisa semelhante aconteceu com enfermeiras
que prestavam serviço hospitalar. É um fenômeno mais
estendido e que viola a liberdade religiosa. Por esta razão, cada
vez com mais freqüência estamos obrigados a chamar a atenção
sobre estes fatos.
– Como os cristãos enfrentam estes
enormes desafios?
Dom Lawrence Saldanha:
- Muitos não prestam atenção ao
que se lhes diz, outros dizem que se trata de brincadeiras, enquanto outros
têm medo.
E algumas vezes são obrigados a passar para o
Islã. Por exemplo, conheço em Lahore o proprietário
de uma loja, que ganha bastante, e que no final foi obrigado por outros
comerciantes a tornar-se muçulmano para que o deixassem em paz.
Se não, teria de fechar a loja. Como você pode ver, o problema
de ser uma minoria está sobretudo no fato de que somos tratados
em nossa terra como forasteiros, ainda sendo paquistaneses. Somos marginalizados
em nossa própria sociedade e por isso às vezes nos vemos
tendo de enfrentar grandes desafios.
– Há sinais de esperança
para os cristãos no Paquistão?
Dom Lawrence Saldanha:
- Agora temos um novo governo e nossa esperança
é que se atenha ao programa sobre a liberdade religiosa. Outro
sinal cheio de esperança é que a polícia cada vez
com mais freqüência protege os cristãos em perigo. O
governo não está contra os cristãos. Há apenas
um grupinho de extremistas que quer impor suas idéias. As pessoas
têm medo deles porque recorrem à tortura, às ameaças,
chegando inclusive a matar. Matam todos aqueles que não lhes agradam.
Eles recorrem inclusive aos atentados suicidas com bombas para alimentar
o medo e amedrontar as pessoas.
– O que espera desta visita à Europa?
Dom Lawrence Saldanha:
- Esperamos que nossos amigos no Ocidente compreendam
as dificuldades que temos de enfrentar.
Somos uma escassa minoria e por isso nossa situação
freqüentemente não é conhecida. Mediante o Informe
sobre a Liberdade Religiosa no Mundo e a coletiva de imprensa, muitos
conhecerão nossa situação e poderão nos apoiar.
Por outro lado, teremos problemas quando os extremistas souberem deste
evento. Eles se vingarão. Já assassinaram muitos jornalistas.
Cada ano há jornalistas que sofrem ameaças, e às
vezes alguns deles morrem porque escrevem sobre suas atividades. Vivem
em uma constante situação de temor: este é o problema
do nosso país. Inclusive as emissoras de televisão recebem
ameaças de atentados bomba.
– O que poderemos aprender dos cristãos
de sua terra, que vivem em uma situação tão difícil?
Dom Lawrence Saldanha:
- Eles possuem uma fé forte, são muito
sólidos na fé em Cristo e põem sua esperança
n’Ele.
Confiam em que nosso Senhor Jesus Cristo os ajudará.
Agora vivem sua fé de maneira muito ativa, nutrem uma forte devoção,
estão muito comprometidos e voltaram a vir à Igreja. Todos
estes fatos, dos quais falamos, uniram os cristãos. Oram e esperam
que as coisas melhorem algum dia.
Esta é uma lição que podemos
aprender com eles: - o fato de que continuam sendo fiéis
ao seu credo.
Zenit
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