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REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DO CONGO: 14/11/2008
Guerra
Conflito no país pode estar se 'internacionalizando'

Apesar da negativa de vários países da região, há fortes indícios de que forças estrangeiras estejam envolvidas nos conflitos no leste da República Democrática do Congo.

Jornalistas no leste da República Democrática do Congo disseram que até um quarto das forças que lutam ao lado do general dissidente, Laurent Nkunda, são ruandesas.
Alguns soldados até teriam dito ter recebido seus soldos do Exército ruandês.
Outras informações apontam para a presença de soldados angolanos e zimbabuanos na região.

'Guerra Mundial da África'

A possibilidade despertou temores de uma repetição de uma guerra que durou de 1998 a 2003 no Congo, e envolveu oito países da região, tornando-se conhecida como a "Guerra Mundial da África".
Na época, forças do governo congolês, apoiadas por soldados de Angola, Zimbábue e Namíbia combateram rebeldes do Congo apoiados por Uganda, Ruanda e Burundi.
As evidências parecem sugerir que a história pode se repetir. A eventual presença de soldados ruandeses nas forças rebeldes tutsis congolesas já vem sendo noticiada há algumas semanas.
Ao mesmo tempo, surgiram relatos de moradores da capital regional, Goma, de que entre as forças do governo congolês estão soldados angolanos - são militares que não falam nenhuma das línguas locais e se comunicavam em português.
Especialistas dizem, contudo, que estas evidências não são conclusivas, pois alguns soldados congoleses, inclusive um grupo conhecido como Tigres Katangueses, lutaram em Angola durante a guerra civil no país e conversam, com freqüência, em português.
Apesar disso, há indícios de que soldados do Zimbábue estejam envolvidos.
Um desertor do Exército disse à BBC que integrava a força que permaneceu no Congo depois do fim da última guerra, em 2003.
"Alguns soldados zimbabuanos foram deixados no Congo durante a retirada das forças aliadas. Há cerca de 250 soldados que ficaram para trás sem o conhecimento de outros países", afirmou o desertor, que não quis ter sua identidade divulgada.

SADC

O governo angolano nega ter enviado tropas para o Congo, embora afirme que apoiaria o governo caso receba um pedido neste sentido da organização regional SADC (Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral).
Ruanda negou reiteradamente ter enviado soldados para o Congo, mas declarações semelhantes foram feitas durante os estágios iniciais da última guerra - e ninguém duvida que tropas estrangeiras tiveram um papel-chave no conflito.
Nestas circunstâncias, não é de surpreender que o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, tenha advertido que o conflito pode envolver o resto da região.

ONU pede mais 3 mil soldados para força de paz no Congo

O subsecretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) para Operações de Paz, o francês Alain Le Roy, pediu formalmente um contingente extra de 3 mil soldados para a República Democrática do Congo.

Seu objetivo é proteger os civis no leste do país, onde recentes combates desalojaram cerca de 250 mil pessoas.Le Roy disse que há, no momento, apenas dez soldados da ONU para cada 10 mil habitantes na região, e que este número é "totalmente inadequado".
Embora as operações de paz no Congo envolvam a maior força da ONU no mundo, com 17 mil soldados em todo o país, seu mandato cobre uma área do tamanho da Europa Ocidental.
"Um relatório do secretário-geral (da ONU, Ban Ki-moon) será emitido na próxima semana, para que saia uma decisão (sobre o aumento de tropas) até o fim do mês", disse Le Roy.
O próximo debate sobre a crise congolesa no Conselho de Segurança está marcado para 26 de novembro.

'Propaganda'

Mais cedo, o general rebelde Laurent Nkunda disse que formou um governo paralelo na área que controla, no leste do país, mas o correspondente da BBC, Mark Doyle, disse que esta declaração parece ser "pura propaganda".
A mais recente crise começou com um avanço de rebeldes do sul em direção a Goma, agora cercada por acampamentos lotados de refugiados.
Mas também há uma outra frente no norte do país, em volta da cidade de Kanyabayonga, disse o correspondente da BBC em Goma, Mark Doyle.
Rumores de um ataque rebelde iminente na região parecem ter levado soldados do governo a, nas palavras de um porta-voz da ONU, "perderem o controle", saqueando civis antes de fugir em caminhões roubados.
A força da ONU tem mandato para trabalhar com o Exército regular porque, em teoria, ele representa o governo eleito na capital, Kinshasa.
Na prática, o Exército é mal treinado e desorganizado, disse Doyle, acrescentando que às vezes os militares representam seus próprios interesses.

ONU denuncia crimes de guerra no Congo

O grupo rebelde liderado pelo general Laurent Nkunda e milícias que defendem o governo da República Democrática do Congo estão sendo acusados pelas Nações Unidas de cometer crimes de guerra.

As supostas infrações teriam ocorrido na cidade de Kiwanja, no leste congolês, que foi tomada pelos homens de Nkunda na semana passada.
Testemunhas afirmam que vários civis morreram no confronto. No entanto, os investigadores da ONU afirmaram ainda não ter formado uma idéia clara do que aconteceu no local.
O chefe das forças de paz da ONU no Congo (Monuc), Alan Doss, afirmou que houve "matança sistemática de civis por diferentes grupos armados" na cidade, que fica a 80 quilômetros da capital do Estado de Goma.
Neste domingo, em Johannesburgo, na África do Sul, uma reunião de cúpula dos líderes dos países do sul da África vai discutir a violência no Congo, entre outros problemas do continente, como a crise política e econômica no Zimbábue.

Mortes de civis

A luta entre tropas do governo e rebeldes congoleses começou em agosto e já deixou cerca de 250 mil desabrigados. A investigação da ONU foi aberta depois que a organização de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch divulgou um relatório no qual afirma que civis foram mortos nas suas próprias casas em Kiwanja, tanto por grupos simpatizantes do governo que tentaram tomar a cidade quanto por rebeldes.

Oficialmente, pelo menos 26 pessoas morreram. O porta-voz militar da ONU Jean-Paul Dietrich afirmou que, algumas morreram em episódios de fogo cruzado, mas outras foram executadas sumariamente.
No sábado, uma reunião de líderes africanos em Nairóbi, capital do Quênia, pediu um cessar-fogo imediato nos conflitos da República Democrática do Congo e mais poderes às tropas de paz da ONU para que elas possam controlar a crise no país.
Eles também pediram a criação de um corredor humanitário para que ajuda possa chegar às milhares de pessoas que foram obrigadas a sair de suas casa por causa dos combates entre os rebeldes do general Nkunda e tropas governistas.

Comboio da ONU chega a regiões de conflito no Congo

Um comboio das Nações Unidas conseguiu entrar nesta segunda-feira no território controlado por rebeldes na República Democrática do Congo levando ajuda humanitária para alguns dos 250 mil deslocados.

Esta é a primeira missão humanitária a alcançar as áreas comandadas pelo general rebelde Laurent Nkunda em uma semana. O correspondente da BBC Peter Greste viajou com o comboio de 12 veículos da ONU, que partiu de Goma, no leste do país, e atravessou o território ocupado pelos rebeldes para chegar até Rutshuru, no nordeste.
Greste disse que campos que abrigavam dezenas de milhares de refugiados estão virtualmente vazios e autoridades locais não sabem o paradeiro destas pessoas nem como elas estariam sobrevivendo.
Sem comida e água, muitos deles estariam deixando os campos de refugiados e voltando para suas casas a pé.
O comboio da ONU chegou a Rutshuru levando medicamentos e tabletes purificadores de água.
O programa para a Alimentação da ONU espera enviar novos caminhões com comida.

Trégua frágil

A região de Rutshuru está relativamente calma, mas há relatos de que combates tenham ocorrido na região na noite de domingo, expondo a fragilidade do cessar-fogo anunciado por Nkunda.
O líder rebelde ameaçou depor o governo do poder, a menos que o presidente Joseph Kabila negocie diretamente com ele. O governo rejeitou o pedido.
No fim de semana, os ministros do exterior britânico, David Miliband, e francês, Bernard Kouchner, se encontraram em reuniões separadas com Kabila e com o presidente da Ruanda, Paul Kagame, para discutir uma saída para a crise.
O governo congolês acusa Ruanda de apoiar os rebeldes liderados por Nkunda, mas os dois presidentes concordaram em participar de uma cúpula regional em Ruanda dentro de algumas semanas.
Nkunda alega que está protegendo seu povo tutsi da agressão de hutus que teriam participado do massacre de Ruanda, em 1994, e estariam baseados no leste da República Democrática do Congo.
A França e a Grã-Bretanha pediram a total implementação dos acordos de paz bilaterais, além do desarmamento da milícia.
O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, disse que a comunidade internacional "não pode permitir que o Congo vire uma nova Ruanda", onde 800 mil pessoas foram mortas no genocídio há quase 15 anos.

Entenda os confrontos entre governo e rebeldes no Congo

Os confrontos entre tropas da República Democrática do Congo e rebeldes liderados pelo general Laurent Nkunda aumentam o risco de uma crise humana na região.

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), até 45 mil pessoas já deixaram campos de internamente deslocados no leste do Congo, fugindo dos rebeldes que estão avançando pela região - que já tem cerca de 1 milhão de deslocados.
As forças rebeldes ameaçam tomar Goma, capital da província de Kivu do Norte e uma das maiores cidades do leste do país.
Os confrontos ganharam força a partir de agosto, quando um acordo de paz assinado entre governo e rebeldes em janeiro foi suspenso. A BBC responde a algumas perguntas sobre o que motivou os conflitos e quais as possíveis conseqüências.

Por que estão ocorrendo novos confrontos?

Não está claro ainda. O general Nkunda diz que luta para proteger sua etnia, a tutsi, de ataques por parte de rebeldes ruandeses da etnia hutu. Entre esses rebeldes, segundo Nkunda, estariam alguns acusados de participar do genocídio ocorrido em Ruanda em 1994.

No genocído de Ruanda, milícias extremistas hutu e integrantes do Exército ruandês foram acusados de cometer um massacre sistemático de tutsis. Em cem dias, cerca de 800 mil tutsis e hutus moderados foram mortos.

O governo do Congo já prometeu repetidas vezes impedir que milícias hutus utilizem seu território, mas até agora não cumpriu a promessa.

O último prazo para cumprir essa medida expirou no final de agosto, exatamente quando os cofrontos foram retomados.

No entanto, alguns analistas afirmam que os confrontos poderiam ter outro motivo. O leste do Congo é rico em recursos naturais, como ouro, e a luta poderia ser pelo controle dessas riquezas.

O general Nkunda tem apoio de alguém?

O governo do Congo acusa Ruanda de apoiar o general Nkunda com tropas e artilharia pesada.
Ruanda nega essas acusações, apesar de ter invadido o Congo duas vezes nos últimos anos.
O presidente de Ruanda, Paul Kagame, é um ex-rebelde tutsi que participou do fim do genocídio.
O Exército congolês é acusado de colaborar com rebeldes hutus tanto nos confrontos armados como na exploração das minas da região. Isso leva alguns analistas a afirmar que seria plausível que Ruanda estivesse usando as forças do general Nkunda para pressionar o Congo a cumprir sua promessa de desarmar as milícias hutus.

O que a ONU tem feito em relação ao conflito?

Essa é a pergunta feita por muitos congoleses. A ONU tem uma força de paz de 17 mil soldados no Congo - a maior missão da organização no mundo. Alguns congoleses acusam a ONU de não fazer nada, e já houve ataques aos escritórios da organização em Goma.
A missão da ONU, porém, enviou helicópteros para ajudar a frear o avanço das forças rebeldes em Goma e pediu reforços para ajudar a pôr fim aos confrontos.

Qual a situação dos civis?

Agentes humanitários estão extremamente preocupados com as dezenas de milhares de pessoas que vivem na área dos conflitos.
Todos os lados são acusados de cometer atrocidades contra civis, principalmente estupros em massa.
Segundo a ONU, até 45 mil pessoas já deixaram campos de internamente deslocados no leste do Congo para fugir dos rebeldes e seguiram para Goma.
Muitas das pessoas que fugiram para Goma são obrigadas a dormir ao ar livre e contam apenas com a ajuda dos habitantes locais e de agências humanitárias para conseguir comida.
A previsão é de que muitos outros sejam afetados pelos confrontos.
A ONU também teme que haja muitas mortes por desnutrição.

Martin Plaut
Analista de assuntos africanos da BBC News

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