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VATICANO: 01/12/2008
Desenvolvimento
Solução da crise exige promoção do verdadeiro
desenvolvimento
Na hora de enfrentar a crise atual, é imprescindível
que toda a comunidade internacional encontre «novas formas de coordenação
internacional em matéria monetária, financeira e comercial»,
mas sobretudo é muito importante que os países mais desenvolvidos
não se fechem em si mesmos, afirma a Santa Sé. Assim aponta
o documento vaticano emanado para a próxima Conferência internacional
que acontecerá em Doha (Qatar) entre 29 de novembro e 02 de dezembro,
sobre o financiamento para o desenvolvimento. Para a S anta Sé,
é necessário evitar a tentação do «protecionismo
recíproco» baseado em «acordos exclusivos» entre
os países ricos e reforçar, ao contrário, «as
práticas de cooperação em matéria de transparência
e de vigilância do sistema financeiro».
«A preocupação pela emergência
financeira que se originou nos mercados maduros efetivamente pode ofuscar
a necessidade de financiar o desenvolvimento. É razoável
pensar que a ajuda pública para o desenvolvimento, que procede
de designações do orçamento que cada país
estabelece de ano em ano, sofrerá por causa dos ingentes recursos
públicos necessários para tapar a emergência da crise
financeira. E isso é um mal, indiscutivelmente», acrescenta.
O documento aponta a que a verdadeira saída da crise passa por
«construir as condições para que as economias que
se geram se destinem verdadeiramente ao desenvolvimento, ou seja, à
criação de oportunidades de trabalho».
Injustiça
com os pobres
A Santa Sé, ainda que reconheça
que desde Monterrey se adotaram algumas iniciativas inovadoras quanto
ao financiamento para o desenvolvimento, considera que a verdadeira questão
continua sem tocar-se:
- a de um sistema que marginaliza os pobres do mercado
em benefício dos ricos. O maior problema é a «incoerência»
das políticas dos países desenvolvidos, que por um lado
dão ajudas e por outro blindam seus mercados frente aos pobres,
explica o documento.
«As políticas nacionais continuam
sendo fortemente incoerentes: - com uma mão se dá
e com a outra se tira.»
«Pense-se, por exemplo, no nexo entre as
políticas de ajuda ao desenvolvimento e as políticas comerciais
dos países avançados:
- as diversas formas de protecionismo manifesto ou escondido,
assim como as persistentes limitações ao acesso das exportações
dos países pobres nos mercados dos países ricos, são
um obstáculo enorme para o desenvolvimento.»
Também atualmente se dão dois paradoxos
que acentuam esta injustiça. Por um lado, «no sistema global,
são os países pobres que financiam os países ricos,
que recebem recursos procedentes seja das fugas de capital privado, seja
das decisões governamentais de guardar reservas financeiras sob
a forma de atividades financeiras ‘seguras’, colocadas nos
mercados financeiramente evoluídos ou nos mercados offshore».
O segundo paradoxo é que «as remessas dos emigrados –
ou seja, do componente menos ‘liberalizado’ dos processos
de globalização – comportam uma afluência de
recursos que, num nível macro, superam grandemente os fluxos de
ajuda pública para o desenvolvimento».
«É como dizer que os pobres do Sul financiam
os ricos do Norte, e os mesmos pobres do Sul têm de emigrar e trabalhar
no Norte para sustentar suas famílias no Sul», acrescenta
a Santa Sé. Com relação à condenação
da dívida externa, particularmente na África, ainda que
«houve progressos», contudo, «os recursos para o cancelamento
da dívida raramente foram adicionais com relação
aos fluxos de ajuda e isso comportou efeitos de recomposição
dos orçamentos públicos sem um aumento real dos recursos
disponíveis para as ações de luta contra a pobreza».
Sociedade
civil, protagonista do desenvolvimento
Outro dos elementos que a nota aponta é o da «efetividade
da ajuda», e recorda que «não basta predispor uma quantidade
adequada de financiamento para pensar em obter, de forma automática,
o desenvolvimento». «Hoje a tendência preponderante
é a de considerar o canal ‘de Estado a Estado’, o chamado
budget support, como a via mais eficaz para fazer chegar os recursos a
países de baixa renda.» Esta tendência é vista
com certa preocupação pela Santa Sé «porque
leva consigo o risco de uma ‘burocratização’
das políticas nacionais de luta contra a pobreza e de um redimensionamento
dos recursos disponíveis pelas diversas formas de iniciativa social
local, tanto por parte das organizações da sociedade civil
como por parte de realidades locais radicadas no território».
Também nem sempre os fluxos de capital para os
países são «um sinal inequivocamente positivo»,
já que «em muitos casos, trata-se efetivamente de importantes
ocasiões de crescimento econômico e de desenvolvimento social;
em outros, não é assim». «Há, de fato,
investimentos que comportam o envolvimento e a formação
dos trabalhadores locais, a transferência de tecnologia, a difusão
de práticas de management responsável; mas há também
investimentos que se limitam a valorizar os recursos mineiros em benefício
de poucos – da elite política ou econômica local –
também, naturalmente, do investidor estrangeiro.»
Antes disso, é necessário reconhecer o
trabalho levado a cabo pela sociedade civil no financiamento para o desenvolvimento,
seja de pessoas individuais, seja de organizações ou fundações.
«Também a adoção de comportamentos responsáveis
em matéria de consumo e de investimento constitui um importante
recurso para o desenvolvimento. A difusão destes comportamentos
responsáveis expressa uma participação concreta por
parte das pessoas – enquanto consumidoras, enquanto investidoras
da economia familiar ou enquanto decisivas para as estratégias
empresariais – na possibilidade que os mais pobres saiam de sua
condição de pobreza.»
Zenit
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