P.I.M.E. - Missio

MISSÃO E INCULTURAÇÃO
AS LIÇÕES DO PASSADO MISSIONÁRIO

Introdução

Há toda uma grande discussão a respeito da evangelização da América Latina. Em 1992 celebrou-se o quinto centenário da Evangelização da América Latina e, no ano 2000, os 500 anos de evangelização no Brasil.

(Cf. HANS, Helm. CONTEXTO E TEXTO: O condicionamento contextual da missão, analisado pela comparação dos catecismos de José de Acosta e Mateus Ricci. Doutorado, N.Sra. da Assunção, 1999, mímeo).

a) Primeira chave de leitura:

Que leitura fazer dos 500 anos?

Antes de tudo, ninguém quer julgar a consciência de tantos missionários que vieram para este continente. Foram pessoas que se sacrificaram e deram a própria vida pela causa do Evangelho. Não vale, também, somente falar de uma consciência possível porque houve missionários que atuaram de maneira profética.

Em segundo lugar, é importante lembrar que, falando da evangelização do Brasil, um destaque especial deve ser atribuído aos leigos que sempre ficaram num...terceiro e quarto lugar. A partir dos beatos e ermitães, peregrinos e benzedeiras, confrarias, etc. o catolicismo adquiriu traços que marcam ainda hoje a religiosidade brasileira.

A melhor ótica de análise nos parece aquela que o Papa João Paulo II traçou em ocasião de um seu discurso no dia 12 de Outubro de 1984 na antiga ilha de La Hispaniola, hoje República Dominicana.

O Papa, falando ao CELAM e, evidentemente, a toda a Igreja da América Latina, acenou à "sombras" e "luzes" que caracterizaram a epopéia missionária na América Latina.

"A Igreja, no que a ela se refere, quer aproximar-se e celebrar este centenário com a humildade da verdade, sem triunfalismos ou falsos pudores".

Quer olhar a verdade para dar graças a Deus pelos acertos e tirar dos erros cometidos razão para se lançar renovada rumo ao futuro.
Ela não quer desconhecer a interdependência entre a cruz e a espada na fase da primeira penetração missionária. Mas, tão pouco quer ignorar que a expansão da cristandade ibérica trouxe a novos povos o dom que estava na origem e gestação da Europa, a fé cristã, com seu poder de humanidade e salvação, de dignidade e fraternidade, de justiça e amor para o novo Mundo..."

O Papa vê, portanto, sombras e luzes. Sombras, por causa da ligação entre o processo colonial e a evangelização. Luzes, pelo fato de que a fé cristã chegou até a América Latina.

b) segunda chave de leitura:

O Padroado Régio:
o controle da "fé" por parte do Reino da Espanha e do Portugal.

O que está à base da evangelização da América Latina é a concessão que os Papas fizeram aos reis sobre o "direito de fé". Os reis católicos, cumulados de privilégios pelos papas, tornaram-se os primeiros defensores e propagadores da fé católica nos territórios conquistados. O "padroado" é o direito de administração dos negócios eclesiásticos concedido pelos papas aos soberanos portugueses e espanhóis, que se tornaram, de fato, os chefes da Igreja da América Latina. O moto era: "dilatar a fé e o império". A associação entre a cruz e a espada significa que "o rei estava convicto ser seu dever implantar a fé católica como parte essencial de seu projeto colonizador e as pessoas da Igreja estavam persuadidas que" para que os indígenas se tornassem cristãos necessitassem passar sob o jugo da dominação portuguesa.
É de baixo deste contexto que se dá a evangelização da América Latina.

1.º A conquista física:

a) o testemunho Asteca

Tenochtitlan, capital dos astecas, cai nas mãos dos espanhóis no dia 13 de Agosto de 1521. Antes tinham sido massacrados os sacerdotes e a nobreza asteca. Quase três meses dura o cerco da capital, submetendo a população à fome e ao desespero. Representa o canto triste dos conquistados e os últimos dias de Tenochtitlan.

O cronista indígena fala da cena:

"Isso tudo se passou conosco".
Nós vimos e estamos estupefatos
Com essa triste e lamentosa sorte.
Nos vimos angustiados.
Nos caminhos jazem dardos quebrados;
Os cabelos estão espalhados.
Destelhadas estão as casas,
Ensangüentados os seus muros.
Vermes abundam por ruas e praças e
As paredes estão manchadas de miolos arrebentados.
Vermelhas estão as águas, como se alguém
as tivesse tingido e, se as bebíamos, pareciam-se como
águas de salitre.
Golpeávamos os muros de adobe em nossa ansiedade
E nos restava por herança uma rede de buracos.
Nos escudos esteve nosso resguardo,
mas os escudos não detêm a desolação.
Temos comido pão de colorim,
Temos mastigado grama salitrosa,
pedaços de adobe, lagartixas, ratos e
terra em pó e mais os vermes.
Comemos a carne quando mal havia sido colocada sobre o fogo.
Uma vez cozida a carne, dali a arrebatavam e a comiam no fogo mesmo.
A língua do lactante cola-se ao palato, por causa da sede.
As crianças reclamam pão e ninguém lhes dá.
Os que se nutriam de iguarias, cambaleiam pelas ruas.
Os que foram educados no fausto, tem o esterco por leito...

"(BEOZZO, José Oscar. Visão indígena da conquista e da evangelização. In: SUESS, Paulo (org.) Inculturação e libertação. São Paulo: Paulinas, 1986, p.82 ou SUESS, Paulo (org.) A conquista espiritual da América espanhola. Petrópolis, Vozes, 1992, p.83-84).

2.º A Conquista Espiritual:

a) O diálogo dos doze

À violência física da conquista segue uma segunda experiência, a da conquista espiritual.
A conquista espiritual, portanto, é o lugar mais profundo e mais sagrado. Destruindo este nível, perde-se o sentido da vida. É aquilo que aconteceu com os últimos astecas.

O relato deste fato vem de uma obra de Bernardino de Sahagún, um dos doze franciscanos presente ao diálogo entre os remanescentes sacerdotes astecas e os doze franciscanos, enviados para evangeliza-los.
O fato aconteceu em 1924. O escrito de Sahagún é de 1564.

"...E agora, o que é que diremos?
O que é que devemos dirigir aos vossos ouvidos?
Somos, por acaso, alguma coisa?
Somos, tão somente, gente comum...
Através do intérprete respondemos,
Devolvemos o alento e a palavra do senhor que está perto e conosco.
Por causa dele nos aventuramos,
Por isto nos lançamos no perigo...
talvez para nossa perdição, talvez para nossa destruição,
é para aí somente que seremos levados.
(Mas) aonde iremos ir?
Somos gente simples, somos limitados.
Deixai-nos pois morrer,
Deixai-nos perecer
Pois nossos deuses já estão mortos.

...Vós dissestes que nós não conhecemos
ao senhor que está perto e conosco,
aquele de quem são os céus e a terra
Dissestes que não eram verdadeiros os nossos deuses.
Nova palavra é esta, a que falais;
Por causa dela estamos perturbados,
por causa dela estamos espantados.
Por que os nossos progenitores, os que existiram,
os que viveram sobre a terra,
não falavam desta maneira.
Eles nos deram
suas normas de vida.
Eles tinham os deuses por verdadeiros,
Prestavam-lhes culto,
Louvavam os deuses.
Assim, diante deles aproximamos terra à boca (juramos),
nos sangramos,
pagamos nossas dívidas,
queimamos copal, e oferecemos sacrifícios.
Diziam (os nossos progenitores):
Que eles, os deuses são por quem se vive,
Que eles nos mereceram.
E diziam (os nossos ancestrais) que os deuses
Nos nosso sustento, nosso alimento,
Tudo quanto se bebe, tudo quanto se come,
O que é nossa carne, o milho, o feijão...
É a ele que pedimos
A água, a chuva,
Pelas quais são produzidas as coisas na terra...
Toda esta era doutrina dos antepassados,
Que são os deuses pelos quais se vive.

E agora, nós destruiremos
A antiga regra de vida?
A regra de vida dos chichimecas?
A regra de vida dos toltecas?
A regra de vida dos colhuacas?
A regra de vida dos tecpanecas?
Porque em nosso coração (sabemos)
A quem se deve a vida,
A quem se deve o nascer,
A quem se deve o crescer,
Como se deve invocar,
Como se deve rogar..

Ouvi, senhores nossos,
Não façais algo a vosso povo
Que lhe cause desgraça,
Que o faça perecer
....Deixai-nos, pois, morrer,
deixai-nos perecer,
pois nossos deuses já estão mortos".(SUESS, Paulo (org.) A conquista espiritual da América Espanhola. Petrópolis: Vozes, 1992.

O argumento dos doze frades se apóia no fato de que o Deus cristão é verdadeiro porque foi superior aos outros deuses. Se os deuses astecas tivessem sido verdadeiros não teriam permitido de serem vencidos. É pelo fato de que os deuses não eram verdadeiros que aconteceu a destruição dos astecas. O argumento da verdade é sustentado sobre um argumento de força. O Deus cristão é mais verdadeiro porque é o mais forte ou, de outra forma, os espanhóis são mais fortes porque tem um Deus forte.

No entanto, o argumento dos sacerdotes astecas se fundamenta no fato que:

  1. os deuses são parte das tradições dos antepassados
  2. com os próprios deuses eles tinham vida em abundância
  3. a destruição dos próprios deuses é perda do sentido da vida.
    É melhor deixar morrer os remanescentes.

3.º As Vozes proféticas:

Frei Antônio de Montesinos

A pequena comunidade dos Dominicanos reage contra a destruição dos índios.
O texto nos foi trazido por Bartolomeu de las Casas.
Estamos no ano de 1511, os dominicanos, após um discernimento comunitário, resolveram assumir uma posição clara. Encarregam o frei Antônio de Montesinos de pronunciar um sermão, por ocasião da Missa do 4º domingo do advento, 21 de Dezembro de 1511.
O tema escolhido é a frase de João Batista: Sou a voz que clama no deserto.
Entre os presentes se encontram os capitães espanhóis e, também, o almirante Diego Colombo, filho do próprio Cristóvão Colombo.

Montesinos diz no sermão:

"Todos vós estais em pecado mortal.
Nele viveis e nele morrereis, devido à crueldade e tiranias que usais com estas gentes inocentes.
Dizei-me, com que direito e baseados em que justiça, mantendes em tão cruel e horrível servidão os índios?
Com que autoridade fizestes estas detestáveis guerras a estes povos que estavam em suas terras mansas e pacíficas e tão numerosas e os consumistes com mortes e destruições inauditas?
Como os tendes tão oprimidos e fatigados, sem dar-lhes de comer e cura-los em suas enfermidades?
Os excessivos trabalhos que lhes impondes, os faz morrer, ou melhor dizendo, vós os matais para poder arrancar e adquirir ouro cada dia...
Não são eles acaso homens?
Não tem almas racionais?
Vós não sois obrigados a amá-los como a vós mesmos?
Será que não entendeis isso? Não o podeis sentir?

Tende como certo que, no estado em que vos encontrais, não tendes mais chance de vos salvardes de que os muçulmanos e turcos, que não têm fé em Jesus Cristo". (LAS CASAS, frei Bartolomeu, apud VALLE, Edênio. Vida religiosa e primeira evangelização: lições do passado. In: Nova Evangelização e vida religiosa, (CRB), p. 36.)

Desta vez são os espanhóis que reagem e, "reunidos em comunidade" pretendem castigar os dominicanos. Imputa-se aos frades o desejo de subverter as leis e a ordem. O almirante, acompanhado por outras autoridades, decide dirigir-se à casa dos religiosos.
Quem o recebe é o superior, Frei Pedro de Córdoba. Eles querem, porém, Montesinos. O superior explica que todos os dominicanos eram responsáveis pelo fato de juntos terem tomado a decisão de falar.

O fato chega ao rei da Espanha e Fernando V responde pessoalmente ao almirante Colombo:

"Li o sermão que dizeis foi feito pelo frade dominicano, chamado Antônio de Montesinos, e muitíssimo me maravilho ele ter dito o que disse, pois não tinha para dize-lo nenhum bom fundamento em teologia, cânones e leis".

Fernando V manda que os dominicanos sejam advertidos e que se retratem. Caso persistissem na atitude tomada, deveriam enviados para a Espanha e castigados. O provincial da Espanha, Frei Alonso de Loaysa, dá inteira razão ao rei. Mais tarde, Montesinos morreu martirizado em 1531.


3.1 Bartolomeu de las Casas: réplica final à Sepúlveda

Houve uma longa polêmica entre Bartolomeu de Las Casas e Sepúlveda, o teólogo jurista da Corte da Espanha. Las Casas defendendo os índios e Sepúlveda legitimando as justas causas da guerra contra os índios (a partir do tratado Democrates Alter de Juan Ginés de Sepúlveda).

Las Casas publicou, finalmente, a réplica final contra Sepúlveda, propondo a evangelização pacífica dos índios.

" Para terminar (...)
Os índios são nossos irmãos, pelos quais Cristo deu sua vida. Por que os perseguimos sem que tenham merecido tal coisa, com desumana crueldade?
O passado, e o que deixou de ser feito, não tem remédio; seja atribuído à nossa fraqueza sempre que for feita a restituição dos bens impiamente arrebatados (...)
Sejam enviados aos índios pregoeiro íntegros, cujos costumes sejam espelho de Jesus Cristo e cujas almas sejam reflexo das de Pedro e Paulo.
Se for feito assim, estou convencido de que eles abraçarão a doutrina evangélica, pois não são néscios nem bárbaros, mas de inata sinceridade, simples, modestos, mansos e, finalmente, tais que estou certo que não existe outra gente mais dispostas do que eles a abraçar o Evangelho, o qual, uma vez por eles recebido, é admirável com que piedade, ardor, fé e caridade cumprem os preceitos de Cristo e veneram os sacramentos (...)
(SUESS, Paulo (org.), A conquista espiritual da América Espanhola. Petrópolis: Vozes, 1992, p. 543).


4.º Mateu Ricci e a Evangelização na China (1552-1610)

No mesmo período em que se dava a evangelização nas "Índias", uma evangelização associada ao projeto colonial hispano-portugês, na China estava acontecendo "outro" tipo de evangelização, sem interdependência entre a cruz e a espada.

Uma das figuras eminentes, neste período, foi a de Mateu Ricci.
Nascido em Macerata (Itália) em 1552, com trinta anos (1582), após ter-se tornado membro da Companhia de Jesus, partiu para a China, onde transcorreu sua vida de estudioso e de missionário.

Conhecemos seu trabalho a partir de muitos escritos: um tratado sobre a amizade e, especialmente, os comentários sobre a China, uma espécie de Diário.

Vestiu-se como um monge budista, antes, e mais tarde assumiu os costumes dos sábios confucianos chineses. Entendeu que precisava se tornar chinês com os chineses. Por isso aprendeu a língua, assumiu os costumes e comportou-se em tudo como um chinês.

Ele usou um CATECISMO, esboçado por Miguel Ruggieri, outro jesuíta que o precedeu. O catecismo data de 1581 e o título é: T'ien-chu shi-lu (Vera et brevis divinarum rerum expositio). Sendo uma síntese da doutrina católica, quando o texto tratava da situação das almas depois da morte, apresentava, curiosamente, as quatro situações tradicionais: o inferno, o purgatório, o limbo e o Paraíso. O que fazer, no entanto, com os sábios confucianos, tidos como padres fundadores do Confucionismo? Não podiam ser desprezados a tal ponto que deviam ser colocados no inferno. Efetivamente, os não batizados deviam estar neste lugar. Não podiam também estar no Purgatório porque nada tinham feito de mal. O limbo era reservado somente para as crianças. E o Paraíso era somente para os santos batizados. O catecismo inclui um quinto lugar para os sábios confucionistas: "É o lugar dos santos da antiguidade" (Sheng-jen).

O que aconteceu, diante desta diferente atitude dos missionários? O contexto, evidentemente, é completamente diferente. Sem o poder temporal, a evangelização foi mais respeitosa das tradições e das culturas dos outros. É verdade que o modelo teológico continuava o mesmo da Europa, mas uma sensibilidade maior era reservada a um contexto isento do poder temporal.

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